Fevereiro. Ele trocou de curso. De novo. Engenharia virou administração, e administração agora vira alguma coisa com design. Eu disse que ia apoiar e passei a noite fazendo contas. O meu pai, aos vinte e dois, já tinha emprego fixo há quatro anos e eu no colo. Fico com a sensação de que meu filho está atrasado para uma vida que ninguém mais vive. Hoje, pela primeira vez, em vez de perguntar “e agora?”, perguntei “o que você descobriu sobre você nessa mudança?”. Ele demorou, mas respondeu: “que eu não aguento coisa que não tem gente.” Anotei. Não sei o que fazer com isso, mas anotei.
Abril. Mudou-se para outra cidade com dois amigos. Um apartamento que eu não visitaria se não fosse dele. Terceiro endereço em dois anos. A mãe chorou; eu fiquei bravo, que é o meu jeito de chorar. À noite entendi que a vida dele muda de endereço mais vezes do que a de qualquer outra idade, e que isso não é falta de caráter; é a estrutura da fase. Decidi ser o único endereço que não muda. Mandei uma mensagem: “O quarto continua aqui. A chave também.”
Junho. Terminou o namoro de dois anos. Voltou para casa por três semanas, magro, calado. Eu queria dizer que ela não valia a pena e que a vida continua, e cada frase dessas ia soar como o desprezo pelo que ele sente. Fiz café. Sentei perto. Ele falou no quarto dia, olhando para a televisão. Descobri que o meu papel nesta década não é resolver; é ser o lugar para onde se volta sem precisar explicar.
Julho. Ele disse, no almoço de domingo, que “só pensa nele mesmo” e que se sente culpado por isso. Fiquei pensando o resto do dia. É a única década da vida em que ele não tem mulher, filho nem pais dependentes para considerar. É a hora de decidir sozinho, e ele nunca mais vai ter isso. Eu tive medo de que o foco em si virasse isenção de tudo, então combinei: ele paga uma conta da casa quando está aqui e cuida do carro. Foco em si não é o mesmo que férias da responsabilidade.
Agosto. Perguntei se ele se sentia adulto. Respondeu: “em algumas coisas.” Ri, mas ele estava sério. É adulto na segunda, quando trabalha, e adolescente no sábado, quando dorme até uma da tarde. Percebi que eu uso “você já é adulto” quando quero cobrar e “você ainda é criança” quando quero controlar, conforme me convém. Decidi tratá-lo como adulto nas áreas em que ele já age como adulto, e acompanhar nas outras sem sarcasmo. É mais difícil do que parece.
Outubro. Ele apareceu com um projeto. Impossível, na minha avaliação. Os olhos brilhavam de um jeito que eu não via desde a infância. Tive na boca a lista dos meus próprios arrependimentos, aquela que começa com “eu também achava que”. Engoli. Disse: “é possível. O primeiro passo é este.” Ele anotou o primeiro passo. Se eu tivesse apagado a esperança com a minha experiência, ele teria perdido a única coisa que faz alguém recomeçar depois de cada erro desta fase.
Dezembro. Reli o diário. Cinco coisas que eu achava defeitos: trocar de curso, mudar de endereço, pensar em si, não se sentir adulto, achar que tudo é possível. Descobri que eram os traços de uma fase que não existia quando o meu pai tinha vinte e dois anos, e que o meu filho não está atrasado; está numa década nova, que vai mais ou menos dos dezoito aos vinte e nove, e que a maioria dos pais nunca teve.
Lembrei de Jesus, que “crescia em sabedoria, estatura e graça” (Lucas 2.52) e que começou o ministério “cerca de trinta anos” (Lucas 3.23). Dezoito anos de carpintaria e obediência entre os doze e os trinta, sem nenhum milagre registrado. Se o Pai não apressou o Filho, eu posso não apressar o meu. E lembrei do começo da Bíblia: “deixa o homem pai e mãe” (Gênesis 2.24). O meu trabalho nesta década não é segurá-lo nem empurrá-lo. É tornar o deixar possível: raízes que não prendem e uma porta que não bate.
Se você tem um filho entre dezoito e vinte e nove anos, escreva a entrada deste mês do seu diário. Uma só. Depois conte aqui qual dos cinco traços apareceu nela.
Equipe Batista Família


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