O QUE FALTA NO “DESCULPA”

“Pede desculpa para a sua irmã.” Ele resmunga “desculpa”, sem olhar, e volta para o que estava fazendo. A irmã continua chorando. Nada foi reparado, mas o protocolo foi cumprido, e a casa segue em frente carregando uma pequena injustiça a mais. A cena é comum, e ela revela um problema que vai muito além dos irmãos: a maioria das crianças aprende, por volta dos sete anos, que “desculpa” não é um pedido de perdão. É uma senha. Ela libera a saída do castigo sem que nada precise mudar por dentro.

Por que a senha não funciona

Quem foi magoado não precisa ouvir uma palavra; precisa ver três coisas: que o outro entendeu o que fez, que assumiu a culpa e que algo vai ser diferente. O “desculpa” resmungado não entrega nenhuma delas. Por isso a irmã continua chorando, e por isso o irmão, que cumpriu o que mandaram, acha injusto que ela continue brava. Os dois têm razão, e é aí que o pai precisa entrar, não com uma ordem, mas com perguntas.

As cinco partes de um pedido de perdão

Um pedido de perdão completo tem cinco partes, e uma criança de oito anos é capaz de aprender todas.

  • Dizer que sente: “Eu fiquei triste de ver você triste.” Mostra que a dor do outro foi percebida.
  • Assumir o erro: “Eu estava errado. Não foi sem querer; eu estava com raiva.” Sem o “mas”. Um pedido de perdão que vem com uma desculpa dentro não é um pedido; é uma defesa.
  • Consertar: “Vou consertar. Se não der, compro outro com o meu dinheiro.” Para muitas crianças, esta é a parte que mais importa, porque é a única visível.
  • Prometer o que vai fazer diferente: “Da próxima vez que eu ficar com raiva, vou chamar você em vez de pegar as coisas dela.” Sem plano, o outro fica com medo de que aconteça de novo.
  • Pedir: “Você me perdoa?” A pergunta transfere a decisão para quem foi magoado. O perdão é dele. A criança pede; não pega.

Não é preciso dizer as cinco todas as vezes. É preciso dizer as que a pessoa magoada precisa ouvir, e as crianças diferem nisso: uma só descansa quando ouve “eu estava errado”; outra, quando vê o brinquedo consertado. Parte do aprendizado é descobrir qual é a língua do irmão.

Como ensinar: perguntando, não mandando

Se o pai apenas manda repetir o “desculpa” com mais convicção, a criança aprende a fingir melhor. Se o pai pergunta, a criança descobre sozinha o que faltou, e o que ela descobre sozinha ela guarda.

As perguntas são simples. “Você pediu desculpa? E ela ficou bem? Então funcionou?” A criança percebe que não. “Se ela quebrasse o seu videogame e dissesse só ‘desculpa’, olhando para o chão, você ficaria bem? O que você ia querer ouvir?” A criança responde, quase sempre, “que ela ia consertar”. Está descoberta a terceira parte. “E você ia querer saber se foi de propósito?” Aqui aparece, muitas vezes, uma verdade escondida: foi de propósito, por raiva. Está descoberta a segunda. “Se ela consertasse e dissesse que estava errada, você ia ficar com medo de ela fazer de novo? O que ela poderia prometer?” Está descoberta a quarta. “E, no fim, tem uma pergunta que ninguém fez.” A criança pensa e chega: “se ela me perdoa”. Está descoberta a quinta.

Uma conversa dessas leva dez minutos numa varanda e vale mais do que dez ordens de “pede desculpa direito”.

O que a Bíblia mostra

Zaqueu descobriu isso sozinho, no alto de uma árvore. Depois de encontrar Jesus, ele disse: “se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais” (Lucas 19.8). Ninguém pediu. Ele entendeu que perdão sem reparação é senha, não conserto. Davi, confrontado por Natã, não apresentou atenuantes: “Pequei contra o SENHOR” (2 Samuel 12.13). E Jesus deu à reconciliação prioridade sobre o próprio culto: “deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mateus 5.24). No Reino, pedir perdão é obra, não fórmula.

O detalhe que decide tudo

A criança só vai pedir perdão de verdade se vir os pais fazendo isso, um com o outro e com ela. Um pai que nunca disse “eu estava errado” para o filho de oito anos está ensinando, sem querer, que assumir o erro é coisa para os pequenos. A regra da casa vale para todos: “desculpa” sozinho não vale; um pedido de perdão precisa de pelo menos duas das cinco partes, e uma delas tem que ser a que o outro precisa ouvir.

Para esta semana

Na próxima vez que o seu filho resmungar “desculpa”, não mande dizer de novo. Sente ao lado dele e comece pela pergunta: “e o seu irmão ficou bem?”. Depois conte aqui até onde ele chegou sozinho.

Equipe Batista Família

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