Toda casa com criança pequena tem um objeto que não pode ser lavado. Um paninho cinza que já foi branco, um ursinho sem um olho, uma fralda de pano com cheiro de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos. Os adultos olham para aquilo e veem sujeira. A criança olha e vê a única coisa no mundo que é dela, que não é a mãe e que não é ela mesma. Esse objeto tem um trabalho a fazer, e o trabalho é maior do que parece.
O que esse objeto está fazendo
Nos primeiros meses de vida, o bebê não sabe onde termina o corpo dele e onde começa a mãe. Aos poucos descobre que ela é outra pessoa, que ela sai e volta, que existe um mundo que não obedece ao desejo dele. É uma descoberta assustadora, e a criança precisa atravessá-la. O paninho, o ursinho ou a fralda surgem exatamente nessa travessia.
São a primeira coisa que a criança possui de verdade, que ela pode levar para a cama, para o carro, para a casa da avó, e que carrega dentro de si um pouco do colo enquanto o colo não está. O cheiro não é detalhe; é o conteúdo. Ele guarda a mãe, o leite, o sono, e por isso a criança cheira o objeto antes de dormir.
Esse objeto costuma aparecer entre os quatro meses e o primeiro ano, ganha força por volta dos dois anos, quando a criança começa a dormir sozinha e a ficar mais tempo longe dos pais, e vai perdendo importância ao longo da infância. Nem toda criança tem um, e isso também é normal. Mas, quando existe, ele é uma ponte entre os braços e o mundo. Sem ponte, a travessia é mais dura.
O que os pais devem proteger
O objeto pertence à criança. Ela pode amá-lo, mordê-lo, arrastá-lo pelo quintal, atirá-lo na parede num dia de raiva e recolhê-lo dez minutos depois com um beijo. Esse uso não é maltrato; é o trabalho dele. A criança precisa saber que existe alguma coisa no mundo que sobrevive à raiva dela e continua ali. O ursinho que aguenta tudo e permanece o mesmo é a primeira experiência dela de um amor que não se vinga.
Por isso, algumas atitudes que parecem cuidado atrapalham. Lavar o objeto sem avisar retira dele o cheiro que era o conteúdo; se precisar lavar, avise, mostre a máquina e devolva o objeto, mesmo que a criança o rejeite por uma ou duas noites até ele voltar a cheirar a ela. Trocar por um “igual” não funciona, porque não existe igual: a criança reconhece a diferença na hora. Esconder o objeto para “desacostumar” ensina que o que ela ama pode sumir sem aviso, e essa não é a lição que queremos. E dizer “você já está grande para isso” apressa uma travessia que tem o seu próprio tempo.
Como o objeto vai embora
Ninguém tira o objeto da criança. Ela larga sozinha, aos poucos, quando o mundo passa a caber no lugar que antes só o paninho ocupava: os amigos, a escola, os livros, as brincadeiras, as orações que ela aprende a fazer sozinha. O objeto vai da cama para debaixo do travesseiro, depois para a gaveta. Não é esquecido nem chorado. Vai ficando menos necessário, e ninguém pergunta para onde foi. Uma criança que teve o seu objeto respeitado não fica dependente; aprende, do jeito que uma criança de dois anos aprende, a suportar a ausência. É o oposto de dependência.
O que isso diz de Deus
O salmista descreve a própria alma como “a criança desmamada” que “se aquieta nos braços de sua mãe” (Salmo 131.2), e o Senhor promete: “como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei” (Isaías 66.13). Deus conhece a travessia entre o colo e o mundo. E ele mesmo deixou ao seu povo sinais visíveis para atravessar a distância de uma presença que os olhos ainda não veem: o arco-íris depois do dilúvio, o pão e o cálice na mesa da igreja. Coisas que se pegam com a mão para lembrar um amor que não se pega. O paninho do seu filho é o ensaio infantil de uma lógica que Deus usa com os adultos.
Para conversar
Qual foi, ou qual é, o objeto do seu filho? E qual era o seu? Se ainda guarda o seu numa gaveta, conte também. Ninguém aqui vai rir.
Equipe Batista Família


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