RUMINAR

Há uma palavra no Salmo 1 que traduzimos por “meditar”, e a tradução, embora correta, deixa passar a imagem. O homem feliz, diz o salmo, é aquele cujo prazer está na lei do Senhor “e na sua lei medita de dia e de noite” (1.2). O verbo hebraico ali não descreve um pensamento silencioso, de olhos fechados. Descreve um som. É o mesmo verbo que Isaías usa para o rosnado baixo de um leão sobre a presa e para o gemido de uma pomba. É um murmúrio. Uma pessoa lendo a Escritura em voz baixa, repetindo as palavras até que elas entrem, como quem rumina.

Guardo essa imagem porque ela é o oposto exato de uma outra, que eu vejo todos os dias e faço todos os dias: o polegar descendo pela tela, os olhos correndo pelas primeiras linhas, pescando uma palavra em negrito, saltando. O olhar em zigue-zague foi inventado para achar o horário do ônibus e é excelente nisso. Só que ele não foi feito para o Sermão do Monte, e o cérebro não sabe disso. O cérebro treina o modo que mais usa.

Ninguém nasce lendo. Nascemos para falar, para andar, para reconhecer um rosto, mas não para transformar riscos numa página em ideias. Cada pessoa que lê precisou construir dentro da própria cabeça um circuito que a natureza não previu, ligando regiões que antes não conversavam. Esse circuito leva anos para ficar pronto e nunca fica pronto sozinho: precisa de alguém lendo em voz alta, de páginas que não piscam e de tempo. E ele funciona em dois modos. O modo raso reconhece palavras, pesca informações, salta. O modo fundo faz o resto: infere o que não está escrito, sente o que a personagem sente, compara com o que já sabia, discorda, para, volta. É no modo fundo que nascem a empatia e o raciocínio longo. E é nele que nasce a meditação.

Uma criança que só treina o zigue-zague chega aos catorze anos com um cérebro que sabe procurar e não sabe permanecer. E permanecer é a habilidade que a fé exige. Ficar num versículo. Ficar numa oração que não foi respondida. Ficar numa pessoa difícil. Quando Esdras leu a Lei para o povo, o texto registra o método com precisão: leram “claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Neemias 8.8). Leitura funda, com pausa. A Bíblia não foi escrita para ser rolada.

Não propomos uma casa sem telas. A tela faz bem o que faz. Estou propondo um filho que sabe fazer as duas coisas e sabe qual usar: rápido na tela para buscar, lento no papel para entender. E isso se constrói do jeito mais antigo possível: com um adulto lendo em voz alta na sala até muito depois de a criança já ler sozinha, com uma página de papel por dia, com o dedo acompanhando a linha para obrigar o olho a andar na velocidade da compreensão, e com um pai que a criança vê com um livro nas mãos, porque a criança não faz o que ouve; faz o que vê.

O verbo do Salmo 1 aparece de novo no Salmo 63, quando Davi diz que medita em Deus “nas vigílias da noite”. É um homem deitado no escuro, murmurando a Palavra até adormecer. Nenhuma tela poderia oferecer isso, porque a tela precisa dos olhos, e a ruminação acontece quando eles fecham.

Faça uma coisa hoje, sozinho ou com o seu filho: leia o Salmo 1 inteiro, com o dedo na linha, em voz baixa, três vezes seguidas. Vai levar uns quatro minutos. Na terceira leitura, alguma palavra que você nunca tinha notado vai aparecer. Conte nos comentários qual foi.

Equipe Batista Família

Compartilhe este texto

Deixe um comentário