ENTREVISTA COM UM MENINO DE DEZ ANOS QUE AINDA NÃO QUER SER ADOLESCENTE

Pedro tem dez anos e quatro meses. A conversa aconteceu na sala da casa dele, com autorização dos pais, que não estavam no cômodo. As respostas estão como foram ditas, com pequenos cortes.

Pedro, seus pais dizem que você é “pré-adolescente”. Você é? Eles falam isso pros outros. Pra mim eles não falam. Eu acho que eu sou criança ainda, só que uma criança grande.

Qual é a diferença? Criança grande pode dormir sozinha e atravessar a rua. Mas ainda gosta de coisa de criança. Eu ainda gosto.

Que coisa? Lego. Brincar de luta no quintal com o meu primo. Ser lido.

Ser lido? Quando minha mãe lê pra mim de noite. Ela parou porque disse que eu já sei ler. Eu sei ler. Mas não é a mesma coisa. Quando ela lê, eu fecho o olho e vejo.

Você pediu para ela voltar? Não. Ela ia achar que eu sou bebê.

Seus amigos têm celular? Quase todos. Eu tenho o da minha mãe emprestado. Eles têm o Instagram e ficam mostrando vídeo nas festas. Eu fico olhando por cima.

Você queria ter? Queria. E não queria. Quando eles ficam no celular, ninguém joga bola. Antes todo mundo jogava bola.

Tem alguma menina que você gosta? (pausa longa) Minha tia vive perguntando da minha “namoradinha”. Eu não tenho namoradinha. Eu tenho a Júlia, que é minha amiga desde o primeiro período. Quando a tia fala isso, eu fico com vergonha de sentar perto dela.

O que a tia deveria fazer? Parar de perguntar.

E chorar? Você ainda chora? Choro. Meu pai fala que eu já sou grande pra chorar. Aí eu choro no banheiro com o chuveiro ligado.

Que horas você dorme? Onze. Às vezes meia-noite. Ninguém manda mais eu dormir. Eu fico no tablet até dar sono.

E de manhã? De manhã eu sou um zumbi.

Se você pudesse pedir uma coisa para os seus pais, só uma, o que seria? Que eles esperassem. Que não tivessem pressa de eu virar adolescente. Eu vou virar. Só que eu queria ser criança mais um pouquinho antes.

Última pergunta. O que os adultos não entendem sobre ter dez anos? Que dá pra ser grande e pequeno no mesmo dia.

Fim da entrevista.

Para os pais de crianças de oito a doze anos

Dos oito aos doze, a criança ainda é criança. Uma criança maior, com opiniões, com humor, com um corpo começando a mudar, mas com necessidades de criança: brincar, mover o corpo, ter tédio, dormir muito, ser lida em voz alta e ser pequena de vez em quando, no colo, sem que ninguém comente. Quando os pais a tratam como adolescente antes do tempo, ela não amadurece mais rápido. Ela perde os últimos anos de um território ao qual nunca vai poder voltar.

O evangelho descreve a infância de Jesus com uma frase, e é uma frase sobre um menino: “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (Lucas 2.40). Menino. Só aos doze anos o texto muda de tom. Deus não apressou a infância do próprio Filho. E Jesus adulto foi quem mais protegeu esse território: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis” (Marcos 10.14). Embaraçar uma criança inclui vesti-la de adolescente antes da hora. “Tudo tem o seu tempo determinado” (Eclesiastes 3.1). Há tempo para o celular, para o namoro e para dormir tarde. Só que não é agora. E quem decide isso não é a prima de treze anos nem o algoritmo.

Faça as mesmas perguntas ao seu filho de oito a doze anos, do jeito que estão, e grave a conversa. Não corrija nenhuma resposta na hora. Depois conte aqui qual resposta mais surpreendeu você.

Equipe Batista Família

 

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