·

CONTRA O MANDAMENTO DA ÉPOCA

Toda época tem um mandamento que ninguém escreveu numa tábua e que todo mundo obedece. O da nossa cabe em três palavras: seja você mesmo. Está no desenho animado, na propaganda de tênis, no discurso de formatura e, com uma frequência que deveria nos inquietar, no púlpito. Parece inofensivo, porque parece óbvio. E é exatamente por parecer óbvio que forma os nossos filhos mais do que qualquer sermão que eles ouvirão.

Nem sempre foi assim. Durante a maior parte da história, uma pessoa recebia a sua identidade de fora: da família, do ofício, da terra, da fé. Ninguém perguntava a um camponês do século doze quem ele era “de verdade”; ele era o filho de fulano, lavrador, batizado. O eu era poroso, atravessado por forças maiores do que ele, e o sentido da vida vinha de cima. Em algum momento dos últimos séculos, o eu se fechou. Passou a ser uma fortaleza com o sentido guardado dentro, e o mundo lá fora virou matéria a ser usada ou temida. Quando o sentido mora dentro, o dever supremo passa a ser cavar até encontrá-lo e depois expressá-lo sem que ninguém de fora tenha o direito de corrigir. Nasce a era da autenticidade.

A palavra merece atenção. “Autêntico” vem do grego, e a raiz de onde ela sai designa alguém que age por autoridade própria, que é o autor de si mesmo. Quando a cultura diz ao adolescente “seja autêntico”, está dizendo, com precisão etimológica, “seja a sua própria autoridade”. É um mandamento religioso disfarçado de conselho de bem-estar.

Dentro de casa, ele aparece com roupa doméstica. “Eu sou assim.” “Isso não é a minha verdade.” “Preciso ser fiel a mim mesma.” A adolescente que trata todo limite como agressão à identidade não está sendo rebelde; está sendo obediente, ao mandamento da época, com mais fidelidade do que os pais. E o filho que crê sinceramente pode, ainda assim, sentir a fé como um item que ele carrega dentro da fortaleza, uma opinião entre outras, e não como uma realidade à qual ele pertence. Para os avós, Deus era o chão. Para os filhos, Deus é uma das portas do corredor, e todos sabem que existem outras. Não adianta fingir que não sabem: eles sentem a força da descrença por dentro, do mesmo modo que os amigos descrentes deles sentem, sem admitir, a nostalgia de algo maior. Uma casa que finge que a dúvida não existe deixa o filho sozinho com ela.

O que a Bíblia responde ao mandamento da época não é uma versão cristã dele. É uma contradição frontal. O mandamento pressupõe que o eu interior é bom e confiável, e que ser fiel a ele é ser fiel à verdade. A Escritura diz o contrário com uma franqueza que hoje soa rude: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9). O eu não é o oráculo. É o paciente.

E ela oferece outro mandamento, quase oposto: não “seja você mesmo”, mas “seja de quem te fez”. “Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos” (Salmo 100.3). A identidade cristã não é expressa de dentro; é recebida de fora. Paulo levou isso ao limite quando escreveu que “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20). O cristão não precisa cavar até o fundo de si para encontrar quem é. Precisa ser encontrado.

Isso muda a pergunta que fazemos aos filhos. A pergunta da época é “quem você é?”, e ela gera ansiedade, porque um eu em construção nunca termina a obra. A pergunta cristã é “de quem você é?”, e ela gera descanso, porque o dono já se apresentou. A primeira pergunta produz adolescentes exaustos de se inventar. A segunda produz filhos que podem errar, mudar e crescer sem que a identidade desabe a cada erro, porque ela nunca foi obra deles.

Não se trata de proibir a palavra “autêntico” em casa. Trata-se de saber o que ela carrega, e de ter uma resposta pronta para o dia em que o filho disser “é a minha verdade”. Qual seria a sua? Escreva nos comentários, em uma frase. As melhores respostas costumam vir de quem já ouviu a pergunta.

Equipe Batista Família

Compartilhe este texto

Deixe um comentário