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A PALAVRA QUE DEU A VOLTA NA MESA

O almoço estava posto quando dona Zélia, oitenta e um anos, disse a frase. “Compromisso é compromisso.” Referia-se ao neto mais velho, Gustavo, vinte e seis, que tinha confirmado o almoço de Natal do dia seguinte e agora dizia que talvez não desse.

A frase saiu da boca dela e começou a dar a volta na mesa.

Chegou primeiro ao filho, Roberto, cinquenta e três, e nos ouvidos dele virou cobrança. Ele ouviu “você criou um filho que não cumpre o que promete”, e endureceu a mandíbula, porque essa era a língua em que a mãe sempre lhe falara: compromisso era palavra dada, e quem faltava com a palavra faltava com a família inteira. Roberto respondeu à mãe defendendo o filho com uma frase seca demais, e a tensão subiu um grau.

A palavra seguiu para Gustavo. Nos ouvidos dele virou controle. Ele tinha um plantão que podia cair no dia 25, e “compromisso” na língua dele era uma coisa que se confirma na véspera, porque a vida não permite mais do que isso. Ouviu a avó como quem ouve alguém exigir uma certeza que ninguém tem. Disse “vó, eu confirmo amanhã de manhã”, e a avó ouviu, nessa frase, que o neto não a tinha na conta de prioridade.

A palavra chegou a Bia, doze anos, irmã de Gustavo. Nos ouvidos dela, “compromisso” era o que os adultos marcavam por ela sem perguntar: o dentista, a aula de inglês, o almoço na casa da bisa. Bia não disse nada. Pegou o celular debaixo da mesa, e a avó viu, e a palavra que tinha começado na boca dela voltou aos ouvidos dela transformada em outra: desrespeito.

Em quatro cadeiras, uma palavra virou quatro. E a ceia ia descarrilar como descarrilava todo ano, quando o pastor Elias, tio de Roberto, oitenta e quatro anos e o único que ainda não tinha falado, pousou o garfo.

“Zélia, o que compromisso quer dizer para você?”

Ela demorou a responder, desconfiada da pergunta. “É a palavra dada. Sem papel. O seu pai me pediu em casamento e não assinou nada. Foi isso.”

“E para você, Roberto?”

“É cumprir a agenda. Eu passei a vida cumprindo a agenda para o senhor e para ela não se envergonharem.”

“Gustavo?”

“É não prometer o que não posso garantir. Eu confirmo na véspera porque prefiro não faltar do que prometer e faltar.”

“Bia?”

A menina guardou o celular. “É o que marcam para mim.”

O pastor sorriu, com aquele jeito de quem fez a mesma pergunta em muitas ceias. “Quatro pessoas, quatro línguas. Nenhuma errada. No Pentecostes, o milagre não foi todo mundo passar a falar a mesma língua. Foi cada um ouvir na sua. O Espírito não uniformizou; traduziu.” Olhou para Zélia. “O seu neto está dizendo, na língua dele, que não quer faltar com você. Ele só não fala a sua língua. E a Bia está dizendo que queria ser perguntada.”

Dona Zélia ficou em silêncio um tempo. Depois olhou para Gustavo. “Confirma de manhã, então. Eu espero.” E para Bia: “Você quer ir na casa da bisa amanhã?”

Bia disse que queria. A palavra tinha dado a volta inteira e voltado para a boca de quem a disse, mudada.

O salmista escreveu que “uma geração louvará a outra geração as tuas obras” (Salmo 145.4). Para louvar uma geração à outra, é preciso antes entender o que a outra está dizendo. A maioria das brigas de Natal não é sobre política nem sobre herança. É sobre tradução.

Na sua casa, escolha uma palavra que costuma dar briga na sua família e faça a pergunta do pastor Elias a cada geração: “o que ela quer dizer para você?” Depois conte aqui qual palavra escolheu e o que descobriu.

Equipe Batista Família

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