Imagine que pudéssemos avançar no tempo. Estamos em 2040. Seu filho, hoje um bebê ou uma criança engraçadinha, é agora um adulto sentado em uma sala de entrevista de emprego, ou talvez conhecendo os futuros sogros.

De repente, alguém puxa um tablet. Na tela, não está o currículo dele, nem suas conquistas acadêmicas. Está um vídeo dele aos 4 anos, chorando copiosamente porque o sorvete caiu, ou uma foto dele no banho, exposta para quem quisesse ver. O que era “fofo” para você em 2026, tornou-se o constrangimento dele em 2040.

Esse cenário não é ficção científica. É a herança que estamos construindo agora.

O fenômeno tem nome: Sharenting. E embora nasça do orgulho legítimo de sermos pais, ele esconde uma armadilha espiritual e de segurança que precisamos ter a coragem de encarar: a nossa vaidade vestida de amor.

O Palco e a Plateia Errada

Houve um tempo em que a privacidade era o padrão. Nossos erros de infância, nossos cortes de cabelo duvidosos e nossas birras ficavam trancados em álbuns de fotografia que mofavam na estante. Só via quem nos amava. Só via quem frequentava a nossa sala e tomava café conosco.

Hoje, transformamos a infância — que deveria ser um jardim secreto — em um palco global.

Precisamos fazer uma pergunta dura ao nosso próprio coração: Quando posto essa foto, estou celebrando a vida do meu filho ou buscando aplausos para a minha performance como pai/mãe?

Se a motivação é o “like”, então meu filho deixou de ser um indivíduo com direitos e tornou-se um acessório da minha autoimagem. Biblicamente, isso é perigoso. Os filhos são “herança do Senhor” (Salmos 127:3), não conteúdo para a nossa audiência. Eles não nos deram consentimento para transformar suas vidas em um Reality Show.

O Lobo em Pele de Seguidor

Além da questão ética, há o perigo real, frio e calculista. O mundo digital não é a extensão do quintal da nossa casa; é uma praça pública onde lobos caminham entre as ovelhas.

Especialistas em segurança alertam: fragmentos que parecem inofensivos — o brasão da escola na camisa, o check-in na natação, a vista da janela do quarto — são as peças que predadores usam para montar o quebra-cabeça da rotina da sua família.

Mais aterrorizante ainda é o uso de Inteligência Artificial para sequestrar a imagem de crianças inocentes e criar conteúdos impróprios. Proteger a imagem do seu filho não é “neura”; é a versão moderna de trancar a porta da casa à noite.

O Direito ao Anonimato

Talvez o maior presente que possamos dar à Geração Alpha e aos que virão depois não seja um iPad de última geração, mas o direito ao anonimato.

O direito de crescer sem uma câmera apontada para o rosto. O direito de aprender a usar o penico sem que 500 pessoas assistam. O direito de ter uma infância que não foi editada, filtrada e tagueada.

Isso significa nunca mais postar? Não necessariamente. Mas significa postar com o “filtro do Reino”:

  • Isso edifica?
  • Isso expõe?
  • Isso é seguro?
  • Se fosse comigo, eu gostaria?

Que tal voltarmos a ter momentos que são apenas nossos? Momentos tão preciosos, tão cheios de glória e riso, que a ideia de parar para pegar o celular e postar no Instagram pareça uma interrupção barata.

Vamos devolver a intimidade ao lar. Seus filhos, em 2040, agradecerão por você ter guardado os tesouros deles, em vez de espalhá-los na vitrine.

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2 respostas a “UMA CARTA PARA O MEU FILHO EM 2040 (OU: POR QUE DECIDI PARAR DE POSTAR VOCÊ)”

  1. Excelente e necessária reflexão, a postagem tem qual motivação.

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  2. Avatar de trabalhecombarbara
    trabalhecombarbara

    Extremamente edificante e necessário, abriu os meus olhos e entendimento. Obrigada! 🙏🙌

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