Escrever este texto toca profundamente minha vida, pois sei do que estou falando.

Ao tentar começar, fiquei refletindo sobre como introduzir o tema, mas não há outra forma de dizer: adoção é adoção. Alguns dizem que se pode falar em “filho do coração”, outros acham que essa expressão não deve ser usada… Mas a verdade é que adoção significa ser recebido como filho, sem um laço sanguíneo, e ainda assim ser filho — para sempre!

Muitas famílias têm essa característica, e este texto tem o objetivo de abrir essa conversa e oferecer apoio àqueles que vivem essa realidade.

A Adoção e a Construção da Identidade

A adoção é uma jornada de identidade, pertencimento e, muitas vezes, de desafios emocionais profundos para pais e filhos. Embora o foco costume estar nos pais adotivos — como apoiá-los, os desafios que enfrentam e a decisão de adotar — raramente paramos para perguntar: Como é ser adotado para a criança?

Cada história de adoção é única. Algumas crianças encontram lares cheios de amor e acolhimento desde cedo, enquanto outras enfrentam dificuldades na construção de sua identidade e na busca por pertencimento. Independentemente da experiência, é fundamental compreender os sentimentos e desafios que podem surgir ao longo dessa jornada.

Para muitas crianças, a adoção não é apenas um evento no passado, mas uma parte essencial de sua história. Algumas cresceram ouvindo os pais contarem com carinho sobre o dia em que elas chegaram em casa, relembrando a emoção, lágrimas de alegria e o amor daquele momento.

No entanto, mesmo nos lares mais amorosos, dúvidas e inseguranças podem surgir. Questões como “Por que fui entregue para adoção?” ou “Será que realmente pertenço a essa família?” são comuns, especialmente durante a adolescência, quando a identidade está sendo moldada.

A Bíblia nos fala sobre a adoção que recebemos em Cristo. Em Efésios 1.5, lemos:

“Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade.”

Essa passagem nos lembra que a adoção não é um acidente, mas uma forma divina de formar famílias por meio do amor.

Os Desafios Silenciosos da Adoção

Mesmo quando a adoção acontece nos primeiros meses de vida, há impactos emocionais que podem surgir mais tarde:

  • Algumas crianças desenvolvem um medo inconsciente de abandono, manifestado por ansiedade em relacionamentos.
  • Outras enfrentam dificuldades de pertencimento, especialmente se foram adotadas por uma família de etnia ou cultura diferente da sua.
  • Comentários insensíveis de colegas ou estranhos podem reforçar sentimentos de exclusão.

Além disso, o desejo de conhecer a família biológica pode surgir com o tempo. Isso não significa rejeição à família adotiva, mas sim uma busca natural por respostas e compreensão sobre a própria história.

Criando um Ambiente de Segurança e Amor

Os pais têm um papel essencial na jornada emocional dos filhos adotivos. Algumas práticas podem ajudar a construir um ambiente onde a criança se sinta segura e amada:

1. Permitir Questionamentos e Emoções

Crianças adotadas podem ter momentos de tristeza, dúvida e até raiva. É essencial que os pais estejam abertos a ouvir sem minimizar os sentimentos. Criar um espaço seguro para conversas sobre adoção fortalece a confiança.

2. Reforçar o Pertencimento

O simples ato de dizer “você é meu filho” ou “você é minha filha” em vez de “você é meu filho adotivo” pode fazer uma grande diferença. Quando os pais demonstram que a adoção não os torna menos família, a criança se sente mais segura. E, mesmo que isso pareça óbvio, nem sempre é o que acontece, infelizmente.

“E, se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.” Romanos 8.17

Nossa identidade em Cristo nos lembra que pertencemos completamente à família de Deus — e esse mesmo princípio deve ser aplicado à adoção terrena.

3. Ajudar a Criança a Construir Sua Identidade com Confiança

Cada criança tem dons e talentos únicos. Os pais podem ajudá-la a desenvolver esses talentos e explorar seus interesses, mostrando que ela foi criada com um propósito.

“Porque somos criação de Deus, realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos.” Efésios 2.10

A adoção não é apenas sobre receber um filho, mas sobre ajudá-lo a descobrir quem ele foi criado para ser.

Construindo Laços Fortes e Significativos

A adoção é uma jornada de amor, mas também de desafios. O apoio emocional, o incentivo à identidade e o fortalecimento do pertencimento são essenciais para que a criança cresça segura e amada.

Se você é um pai ou mãe adotivo, lembre-se: o mais importante não é ter todas as respostas, mas estar presente, ouvindo e acolhendo cada fase dessa caminhada.

Tenho aprendido que a adoção é uma expressão do amor divino e que cada criança adotada tem um propósito precioso. Mas, mais do que isso, tenho entendido que receber uma criança é ser completamente alcançado pela graça de Deus e nos permitir ser pais de presentes maravilhosos enviados pelo próprio Deus!

Pr. Nícolas Bastos

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