Ela colocou a xícara sobre a mesa, ligeiramente fora do porta-copos. Para ele, foi o suficiente para franzir a testa. “De novo?”, pensou em silêncio. Não disse nada, mas o olhar pesado denunciava. Ela, por sua vez, percebeu. Fingiu ignorar, mas sentiu o incômodo se espalhando como uma sombra no ambiente.
Casamentos muitas vezes tropeçam em xícaras fora do lugar. Não porque isso seja, de fato, um problema grave, mas porque existe algo maior por trás: o desejo de que tudo esteja perfeito. A casa impecável, o prato bem arrumado, a palavra dita no tom certo, a rotina sem falhas.
Mas quem aguenta viver num palco todos os dias?
O perfeccionismo é sedutor. Ele dá a sensação de controle, como se pudéssemos blindar o casamento contra brigas e decepções. Só que, ironicamente, o excesso de exigência é justamente o que nos afasta da paz. O amor começa a ser medido pelo nível de organização da sala, pela eficiência na lista de tarefas, pelo acerto na escolha das palavras. E assim, aos poucos, a graça vai embora.
Naquele dia da xícara, ela respirou fundo e perguntou:
Está tudo bem?
Ele demorou a responder. No fundo, sabia que não era sobre a xícara. Era sobre seu próprio coração, cansado de querer que tudo estivesse sob controle.
Foi então que lembrou das palavras que um pastor havia citado no último culto: “Não pense de si mesmo além do que convém; mas pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” Romanos 12.3
Ele sorriu sem graça. Reconheceu o exagero. Pediu desculpas. E, pela primeira vez em muito tempo, não tentou explicar nem justificar. Apenas disse:
Eu tenho pegado pesado com você, não é?
Ela se aproximou, puxou a cadeira e respondeu com simplicidade:
Não preciso que seja perfeito. Só preciso que seja meu companheiro.
E foi assim, em meio a uma xícara torta, que descobriram algo maior: o casamento não floresce no palco da perfeição, mas no quintal da graça, onde há espaço para erros, perdão e recomeços.


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