A cena dura poucos segundos, mas reverbera o dia inteiro. Num momento de irritação, você se exalta, fala alto, encerra a conversa com impaciência. Silêncio. Então, sem elevação de tom e sem ironia, seu filho diz:
“Pai, você sempre fala para a gente ter calma. Por que o senhor não teve?”
De repente, o que era costume — dar o exemplo, apontar falhas, disciplinar — inverte-se como um espelho colocado na altura do seu rosto. A reação automática pode ser a defesa: “Não compare, você não entende o que é cansaço”. Ou o paternalismo: “Depois conversamos, isso é assunto de adulto”. Qualquer fuga, no entanto, desperdiça um momento raro de formação mútua: a oportunidade de mostrar, na prática, que autoridade cristã nasce da verdade, não da impecabilidade.
1. O susto de ser desmascarado em casa
Não é fácil admitir erro diante de quem se espera obediência. O orgulho sussurra que você precisa preservar sua imagem; a insegurança avisa que, se confessar, perderá controle. Mas é justamente o contrário. Quando um pai recorre à negação, comunica que a verdade está sujeita ao seu humor. Quando ele reconhece a queda, evidencia que a verdade o governa — e que todos na família, inclusive ele, estão debaixo da mesma Palavra.
2. A pedagogia do arrependimento
A Bíblia não oculta falhas de seus protagonistas: Davi reprende a si mesmo no Salmo 51; Pedro aceita correção pública de Paulo (Gálatas 2). Em ambos os casos, o ponto alto não é o erro, mas o arrependimento visível. Se você confessa o pecado na frente do filho — sem rodeios, sem “mas” explicativos — transforma a vergonha em ensino vivo. Ele aprende que pecar é humano; esconder-se é desumano; voltar-se a Deus e restaurar relações é caminho de gente que crê na graça do Pai.
3. Reconstruindo o que se partiu
Reconhecer não basta: é preciso reparar. Peça perdão a quem foi ferido, inclusive ao filho que testemunhou. Explique, em palavras simples, qual foi a raiz da explosão (“impaciência”, “orgulho”, “pressa sem oração”) e quais práticas você adotará para vigiar essa área. Ao verbalizar o plano, você convida a família a interceder, não a policiá-lo. Autoridade que se submete à graça ganha em profundidade o que perde em fachada.
4. O lugar do filho nesse processo
Muitos pais se sentem diminuídos quando o filho aponta incoerência. Na verdade, trata-se de confirmação de que as lições foram compreendidas. A criança só reconhece a falha porque internalizou o valor ensinado. Agradeça, acolha, mostre que adultos também precisam de irmãos que alertem — e que, naquele instante, Deus escolheu usar justamente quem você educa para educá-lo de volta.
5. Quando a falha se repetir
Ela vai. O pecado raramente se rende à primeira confrontação. Mas cada novo tropeço, tratado com a mesma honestidade, consolida a cultura de verdade no lar. Com o tempo, seus filhos deixarão de temer a sinceridade; aprenderão que caminhar com Cristo não é uma exibição de perfeição, e sim um movimento constante de queda, confissão e restauração.
Conclusão
Ser desmascarado pelo próprio filho dói porque fere o ego, mas cura porque alinha o coração à realidade do evangelho: todos pecaram; todos necessitam de graça (Rm 3.23-24). Quando a verdade vier outra vez da boca infantil, não se apresse a defender a reputação. Respire, agradeça, confesse, repare. Seu filho não precisa de um pai infalível — precisa de um pai que viva, à vista dele, aquilo que prega sobre perdão e nova vida.
Equipe Batista Família


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