Alguns pequenos parecem nascer com “molas nos pés”; outros preferem observar o mundo antes de arriscar o próximo passo. A psicologia do desenvolvimento chama essa característica de nível de atividade — um dos traços de temperamento descritos no clássico New York Longitudinal Study de Thomas & Chess. Eles notaram que:

“Crianças com alto nível de atividade precisam de oportunidades para brincar e explorar o ambiente de forma segura, ao passo que crianças menos ativas precisam ser convidadas para descobrir novidades.”

A seguir, veja como transformar essa ideia em prática no dia a dia.

1. Para os supermovidos: espaço, ritmo e segurança

  • Transforme energia em exploração dirigida. Reserve intervalos diários para atividades que gastem energia (pular corda, circuitos caseiros, parque). Isso evita que o excesso de movimento apareça justamente na hora de fazer a lição ou de ir para a cama.

  • Ofereça desafios graduais. Percursos de obstáculos ou brincadeiras que exijam equilíbrio e força desenvolvem coordenação e autoconfiança sem expor a riscos desnecessários.

  • Traga a natureza para perto. Visitas frequentes a praças, trilhas leves ou mesmo um quintal com caixas de areia e água permitem que a criança explore texturas, alturas e velocidades em um cenário que você consegue supervisionar.

2. Para os pequenos observadores: convite, tempo e encorajamento

  • Convites concretos, sem pressão. Em vez de “Vai lá brincar!”, experimente propor: “Vamos ver quantas folhas diferentes encontramos neste canteiro?”. A curiosidade tende a vencer a hesitação.

  • Aproximações sucessivas. Caso ele recue diante de algo novo, fique por perto, demonstre e permita que observe antes de tentar — estratégia que os próprios autores recomendam quando a reação inicial é de afastamento .

  • Reforce cada avanço. Pequenos passos, como tocar a bola uma vez ou escorregar no brinquedo mais baixo, merecem reconhecimento verbal (“Percebi que você tentou mesmo estando com receio. Isso é coragem!”).

3. Ajuste a rotina familiar

O temperamento não é defeito nem virtude; é ponto de partida. Por isso, vale checar se a dinâmica da casa dialoga com ele:

  • Ambiente físico: em lares silenciosos, a criança muito ativa se beneficia de um “cantinho da bagunça” onde possa correr ou pular sem riscos; já o espaço do contemplativo precisa de zonas tranquilas para leitura ou construção de Lego sem interrupções.

  • Agenda diária: reveja sequências longas de compromissos sentados (aulas extras, cultos prolongados) para o hiperativo e, no sentido oposto, ofereça horários fixos de movimento estruturado ao menos ativo.

  • Expectativas dos adultos: reconhecer que o ritmo do filho é diferente do seu reduz conflitos e ajuda na negociação de limites realistas, como lembra a literatura sobre “ajuste” entre temperamento e ambiente. Pais tranquilos podem estranhar um filho “turbo”; cuidadores cheios de energia podem se impacientar com crianças contemplativas. Lembrar que não existe temperamento errado, e sim combinações mais ou menos compatíveis, ajuda a evitar rótulos e comparações. O segredo é adaptar rotinas e expectativas—tanto a criança quanto o adulto fazem ajustes.

4. Brincadeiras que servem aos dois perfis

  • Caça ao tesouro em casa: o ativo corre; o tranquilo observa, procura pistas e ambas as naturezas se completam.

  • Cozinha experimental: amassar massa atrai quem gosta de ação; medir e decorar envolve o analítico.

  • Projetos de jardinagem: cavar e regar pedem energia, mas acompanhar o broto crescendo atrai o observador.

5. Quando se preocupar

Se a agitação continua desproporcional mesmo depois de ajustes ambientais ou se a inatividade vem acompanhada de retraimento social intenso, converse com o pediatra ou um psicólogo especializado em desenvolvimento infantil. Temperamento não é diagnóstico, mas pode coexistir com transtornos que pedem intervenção precoce.

Entender o “motor interno” do seu filho permite equilibrar estímulo e segurança sem apagar a personalidade dele. Crianças muito ativas precisam de espaços para gastar energia com propósito; as menos ativas, de convites claros e apoio gentil para sair da zona de conforto. Ajustar o cenário aos seus ritmos é a melhor forma de ajudá-las a descobrir o mundo — cada uma ao seu tempo, no seu passo.

Equipe Batista Família

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