Maria acorda antes do despertador. Não é o choro do bebê, nem o alarme do celular; é um chamado silencioso que mora atrás dos olhos. A essa hora da madrugada, a casa descansa, mas a mente dela já prepara itinerário: lancheiras, uniforme que ficou de molho, a planilha que o chefe pediu, a visita da sogra, o médico do caçula, a torta para a reunião de pais. No fundo da lista há um lembrete tímido — “cortar o próprio cabelo” — que, por cinco meses, continua lá, quieto, esperando um dia que nunca chega.
Ela não reclama. “É assim mesmo, ser mãe é se doar”, repetiu tantas vezes que virou salmo particular. E, de fato, há doação. O problema é que, na matemática secreta do coração, doar sempre significa esquecer-se. Quanto mais se esquece, mais se culpa por achar que não fez o suficiente. É como andar na areia movediça: quanto mais força, mais afunda.
Certa noite, depois de um dia especialmente longo, o marido oferece lavar a louça. Maria agradece, mas, quando ele termina, ela volta à cozinha e refaz tudo em silêncio. Os talheres ficaram manchados, a caneca ainda engordurada. Ela suspira com irritação contida — não contra ele, que ao menos tentou, mas contra si, porque precisava dormir e, ainda assim, não confia que o “quase bom” possa servir.
Nas semanas que se seguem, o espelho revela olheiras profundas. O pediatra pergunta se ela tem pausas para si. Sorri educadamente. Pausas? Só no semáforo, quando o carro está parado. Numa dessas paradas, percebe algo estranho: saudade de si mesma, de um café sem filhos no colo, de um livro que não ensine pedagogia. A saudade dói mais do que a exaustão.
Um domingo, a família chega atrasada ao culto. Nenhum brinquedo para entreter a criança, a fralda emergencial ficou na outra bolsa, e Maria se surpreende pensando: “Mãe decente não esquece essas coisas”. Durante o sermão sobre graça, sente o rosto arder. Não pela mensagem — mas por enxergar o abismo entre o ideal que impôs a si mesma e sua humanidade real.
Na volta, enquanto as crianças dormem no banco de trás, ela quebra o silêncio:
— Eu estou cansada de nunca me achar boa o bastante.
O marido segura sua mão, sem lições, e apenas diz:
— Você já é.
A frase não resolve planilhas nem uniformes, mas racha algo dentro. Pela primeira vez ela considera que perfeição não era parte do pacote de maternidade. Talvez dizer “não” a um convite, aceitar ajuda torta, permitir uma pia meia-lavada sejam atos de cuidado — não de negligência.
Na segunda-feira, Maria escreve na agenda um compromisso inesperado: Trinta minutos só meus. Não esclarece o que fará nesse tempo; o importante é que exista. Quando o celular desperta na hora marcada, o impulso é ignorar. Mas ela respira, entrega as crianças à avó e caminha até a padaria da esquina. Pede um café simples, senta perto da janela, observa a rua. Nada milagroso acontece: ninguém descobre vacina nova, os pratos sujos a aguardam em casa. Ainda assim, volta diferente — não descansada, mas lembrada de que existe.
Dias depois, o filho derrama suco no tapete. Ela abre a boca para repreender e estanca. Limpa o líquido, abraça o menino e diz: “A mamãe também faz bagunça às vezes”. Estranho alívio tomar consciência de que o tapete manchado não define a família.
À noite, deita e sussurra uma oração curta: “Senhor, ensina-me a amar sem desaparecer”. Sabe que precisará repetir essa súplica muitas vezes. E tudo bem. Amor adulto não é feito de grandes viradas, mas de pequenos limites aprendidos entre uma fralda e outra.
No final, Maria descobre que cuidar de si não diminui o cuidado pelos filhos — expande. Crianças crescem mais seguras quando veem a mãe viva, não exausta; humana, não heroína. A pia às vezes ficará com espuma, o cabelo talvez atrase mais um mês, e o mundo não acabará. O que acaba, lentamente, é o peso invisível que ela mesma criara.
E, quando o despertador tocar de novo, talvez desperte primeiro a lembrança de que amor, para permanecer leve, precisa caber em quem ama.
Equipe Batista Família


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