Vivemos uma era de pais presentes.
Estamos nos grupos da escola, levamos às consultas, cuidamos da alimentação, falamos sobre carreira, futuro, comportamento, limites. O discurso moderno da parentalidade está em toda parte. Mas, na prática, a dor silenciosa de muitas famílias revela outra realidade.
Mesmo com presença, zelo e intenção, muitos pais hoje vivem um luto emocional: o de perceber, às vezes tarde demais, que seu filho cresceu se sentindo sozinho. Não por abandono físico, mas por um vazio afetivo que ninguém soube nomear.
Este texto é para você, pai ou mãe, que já disse a si mesmo: “Mas eu estava lá. Eu cuidei. Como é que meu filho se sente tão distante?”
O que é abandono afetivo — e por que ele é invisível?
Diferente do abandono material, visível nos noticiários, o abandono afetivo se instala no espaço onde deveria haver acolhimento emocional, escuta, empatia. Ele acontece quando o filho, por mais amado que seja, não se sente visto nem compreendido em suas emoções.
Esse tipo de ausência não nasce da má vontade dos pais. Muitas vezes, é o resultado de uma história emocional não resolvida, transmitida de geração em geração — um cuidado funcional, mas não emocional.
Pais que não receberam acolhimento, que foram obrigados a amadurecer cedo, que aprenderam a engolir o choro e esconder a dor, tendem a repetir, sem perceber, esse mesmo modelo com os próprios filhos.
Os efeitos silenciosos do abandono emocional
Quando uma criança cresce sem encontrar no outro um espelho emocional confiável, desenvolve mecanismos de sobrevivência afetiva. Ou seja: adapta-se ao ambiente, mas paga um alto preço por isso.
Esses filhos podem:
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Tornar-se extremamente responsáveis e maduros precocemente, mas emocionalmente distantes;
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Desenvolver uma imagem pública “feliz e funcional”, enquanto carregam insegurança profunda e sentimento de inadequação;
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Crescer acreditando que expressar emoções é errado, incômodo ou sinal de fraqueza;
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Ter dificuldade de confiar nas relações, achando que, cedo ou tarde, serão decepcionados ou abandonados.
Muitos desses sintomas só aparecem na adolescência ou na vida adulta. E, às vezes, é apenas então que os pais percebem que o vínculo afetivo, embora cheio de intenções, nunca se consolidou de forma segura.
E os pais? Onde entra a dor deles?
Este é um dos pontos mais importantes — e mais negligenciados: pais emocionalmente ausentes também estão feridos.
Esse comportamento não nasce do desinteresse, mas de uma herança emocional não curada. Muitos pais de hoje foram filhos de pais ausentes, rígidos, frios, silenciosos. E aprenderam, ainda pequenos, que o melhor a fazer era funcionar — ser forte, ajudar em casa, não reclamar.
Agora, adultos e responsáveis por uma família, se veem diante de algo que não aprenderam: a presença emocional.
Como romper esse ciclo?
1. Reconheça a sua própria história
Antes de tentar “consertar” a relação com seus filhos, é necessário olhar para trás e perguntar:
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Como foi minha infância?
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Meus pais reconheciam minhas emoções?
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Tive espaço para ser vulnerável?
Muitos pais só compreendem suas reações com os filhos quando acessam as dores que carregam desde a infância — e que foram reprimidas.
2. Não tente compensar com esforço. Construa presença.
Não se trata de fazer mais, mas de estar mais inteiro nas pequenas interações. Sentar e ouvir sem julgar. Validar sentimentos. Dizer: “Entendo que você está triste.” Isso não precisa durar horas — mas precisa ser real.
3. Não espere perfeição. Procure verdade.
O amor não exige desempenho. Ele exige abertura. Ser verdadeiro com os filhos, mesmo sem saber tudo, tem mais valor do que fingir que está tudo bem. Você pode dizer: “Eu não sei exatamente como te ajudar agora, mas estou aqui. Quero te ouvir.”
4. Repare, mesmo que tardiamente.
Se você já reconheceu falhas emocionais, ainda dá tempo de pedir perdão e reconstruir pontes. Um “me desculpe, agora entendo melhor” pode abrir mais espaço do que qualquer discurso longo.
Pais curados geram filhos mais livres
Quando um pai ou mãe enfrenta a própria história e se permite sentir, nomear, curar… algo poderoso acontece: os filhos também ganham permissão para serem quem são.
Eles aprendem que não precisam se anular, fingir ou agradar para serem amados. Aprendem que suas emoções importam. Que têm valor mesmo quando erram.
E, sobretudo, aprendem que família não é lugar de perfeição. É lugar de transformação.
Ser pai e mãe é também ser filho de novo
Ninguém nasce sabendo como educar emocionalmente. Criar filhos é um chamado que também nos convoca a revisitar a nossa própria história.
E essa jornada, embora difícil, pode ser redentora. Porque quando um pai se cura, toda uma linhagem emocional pode ser restaurada.
Não se trata de olhar para trás com culpa. Mas de olhar com lucidez, fé e disposição para fazer diferente. E, com a ajuda de Deus, construir lares onde o cuidado emocional seja tão importante quanto o material.
Programa Batista Família
Bibliografia
SCHOR, Daniel. Heranças Invisíveis do Abandono Afetivo: Um estudo psicanalítico sobre as dimensões da experiência traumática. São Paulo: Blucher, 2017.


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