“Filho meu, dá-me o teu coração; e os teus olhos observem os meus caminhos.”
Provérbios 23.26
Há perguntas que não cabem em uma pesquisa no Google. Não porque a resposta seja complexa demais, mas porque ela exige silêncio interior. Uma dessas perguntas, que ecoa nas madrugadas dos pais que amam com temor, é esta: “Minha relação com meu adolescente está saudável?”
Diferente de saber a temperatura do corpo, a febre nos vínculos familiares não se mede com termômetro. Ela se sente nos silêncios prolongados, nas respostas atravessadas, na ausência de riso, no cansaço de tentar — ou no medo de tentar de novo.
Mas atenção: ausência de conflito não é sinônimo de saúde. Muitas famílias que não discutem já desistiram de conversar. Silêncio não é paz. É, muitas vezes, indiferença disfarçada.
O adolescente e a travessia do invisível
Adolescência é território em reforma. É como morar numa casa onde há barulho, poeira e estruturas que não param de se mover. Nenhum adolescente está pronto. Nenhum pai também.
Segundo a psicóloga Lisa Damour, as mudanças que ocorrem na adolescência são previsíveis, sim, mas desconcertantes. Ela fala de “transições” pelas quais os jovens passam — sair da infância, encontrar tribos, lidar com emoções, buscar autonomia, descobrir a si mesmos. E cada uma dessas etapas testa a saúde do vínculo com os pais.
E aqui está a chave: vínculo saudável não é ausência de tensão, mas capacidade de suportá-la sem se romper.
A arte de discernir os sinais
Queremos te ajudar a fazer uma autoavaliação realista. Não para julgar-se, mas para orientar o coração em oração. Olhe para os seguintes sinais:
1. Seu filho se sente seguro para ser imperfeito com você?
A confiança não se mede por sorrisos em fotos, mas por quantas vezes ele te procura depois de errar.
2. Há espaço para ele discordar sem ser punido emocionalmente?
A discordância não é desrespeito — é maturidade em construção. Uma relação saudável permite diferenças, sem rachar a ponte da honra.
3. Você conhece suas dores atuais ou apenas suas obrigações escolares?
É possível viver ao lado de um adolescente sem saber o que se passa dentro dele. Presença física não substitui conexão emocional.
4. Ele sente que pode te decepcionar… e ainda assim será amado?
O amor incondicional é o solo fértil onde o arrependimento e a transformação florescem.
5. Há oração e afeto explícito?
Não basta amar. É preciso demonstrar. Ore com ele. Abrace sem motivo. Diga “eu te amo” mesmo quando tudo estiver difícil.
O desafio do espelho
A psicóloga Sònia Cervantes diz que a adolescência dos filhos é, muitas vezes, o espelho não resolvido da nossa própria juventude. Por isso, pergunte a si mesmo: Que tipo de pai ou mãe eu teria gostado de ter nessa fase da vida? A resposta pode te ajudar a recalibrar sua postura hoje.
O evangelho e o amor que permanece
A boa notícia do Evangelho é que o amor de Deus não depende do desempenho dos Seus filhos. E Ele nos convida a amar assim: com graça, verdade e paciência. Seu filho não precisa de um juiz — ele precisa de um pai ou mãe com os joelhos no chão e os ouvidos atentos.
Ferramenta: 5 perguntas para oração pessoal
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Em que momentos da semana eu realmente escuto meu filho?
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Quando foi a última vez que rimos juntos?
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O que tem gerado mais tensão entre nós?
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Eu sei em quem ele confia, com quem se aconselha?
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Estou amando mais com palavras ou com presença?
Avaliar a saúde de uma relação com um adolescente não é buscar perfeição. É perguntar todos os dias: “Senhor, estou sendo para meu filho um reflexo do Teu amor?”
Família saudável é aquela onde Cristo é o elo — e onde há graça suficiente para suportar o barulho da reforma que é crescer.
Programa Batista Família
Bibliografia
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Damour, Lisa. Untangled: Guiding Teenage Girls Through the Seven Transitions into Adulthood. Ballantine Books, 2016.
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Cervantes, Sònia. Vivir con un adolescente: Entenderte con tu hijo es posible. Zenith, 2015.
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Carey, Tanith & Rudkin, Angharad. What’s My Teenager Thinking? Practical Child Psychology for Modern Parents. DK, 2020.
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Laser, Julie Anne & Nicotera, Nicole. Working with Adolescents: A Guide for Practitioners. The Guilford Press, 2021.
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Aguirre Baztán, Ángel (Ed.). Psicología de la adolescencia. Marcombo, 1994.


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