Os pais sabem que a infância e a pré-adolescência são momentos de intenso aprendizado e desenvolvimento, nos quais a saúde emocional dos filhos pode ser moldada pelas atividades que integram seu dia a dia. Com o aumento do tempo de tela, muitos se perguntam sobre os efeitos desse hábito. Pesquisas recentes sugerem uma conexão preocupante entre o uso excessivo de dispositivos eletrônicos e sintomas sérios de saúde mental em pré-adolescentes.

Um estudo publicado pela BMC Public Health acompanhou crianças de 8 a 10 anos por dois anos, observando o impacto do uso de telas em sua saúde mental. Os resultados apontam que o tempo excessivo em atividades como bate-papo por vídeo, envio de mensagens, visualização de vídeos e jogos eletrônicos está ligado a sintomas de depressão, ansiedade e até agressividade. Esse estudo é um dos primeiros a explorar os efeitos de longo prazo da tecnologia na saúde mental de pré-adolescentes, trazendo dados que podem ajudar pais e cuidadores a reavaliar o uso de dispositivos eletrônicos.

Os Impactos do Excesso de Tempo de Tela

É fácil entender por que as telas se tornam atrativas: as atividades digitais oferecem distração e uma válvula de escape para o tédio. Contudo, o tempo gasto em telas pode acabar substituindo outras atividades fundamentais para o desenvolvimento emocional e social saudável, como:

Atividades físicas: O exercício é uma ferramenta poderosa para aliviar o estresse e melhorar o humor, pois libera endorfinas e proporciona uma pausa mental saudável. O sedentarismo, no entanto, afeta negativamente o bem-estar, tanto físico quanto emocional.

Interações sociais presenciais: A troca de experiências com amigos e familiares constrói habilidades sociais e fortalece vínculos essenciais para o desenvolvimento emocional. A interação digital, por mais prática que seja, não substitui o valor das conexões presenciais.

Sono: O uso prolongado de dispositivos pode atrasar a hora de dormir e prejudicar a qualidade do sono. A privação de sono é um dos maiores fatores de risco para a depressão e a ansiedade, especialmente em crianças e adolescentes.

Esses fatores contribuem para o aumento de sintomas de saúde mental, realidade reforçada pelo professor Jason Nagata, do Benioff Children’s Hospital da Universidade da Califórnia em São Francisco. Segundo ele, a falta de atividades como exercícios físicos e interação social presencial agrava sintomas de ansiedade e depressão, afetando tanto o bem-estar imediato dos pré-adolescentes quanto seu desenvolvimento a longo prazo.

Preocupações Recentes com a Tecnologia e a Saúde Mental dos Jovens

Atualmente, muitas crianças passam uma média de 5,5 horas diárias em telas apenas para atividades de lazer. Esse uso excessivo está relacionado a um aumento de 50% nos episódios de depressão entre adolescentes em comparação com duas décadas atrás, de acordo com dados de saúde pública. Estudos adicionais mostram que jovens com uso excessivo de telas apresentam maior chance de desenvolver sintomas de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), reforçando que o tempo de tela pode ter implicações negativas para o comportamento e o foco dos pré-adolescentes.

O Que os Pais Podem Fazer para Equilibrar o Uso de Telas?

Para os pais, equilibrar o uso de dispositivos eletrônicos pode parecer um desafio, especialmente em um mundo onde a tecnologia está presente em todos os aspectos da vida. Aqui estão algumas estratégias práticas que podem ajudar:

Estabeleça horários sem tela: Defina horários específicos do dia para atividades livres de dispositivos eletrônicos. O tempo em família durante as refeições ou atividades ao ar livre é uma maneira valiosa de desconectar e fortalecer laços.

Incentive atividades fora do ambiente digital: Estimule hobbies que não envolvam telas, como leitura, esportes ou artesanato. Essas atividades ajudam a desenvolver habilidades criativas e sociais que beneficiam a saúde mental dos jovens.

Dê o exemplo: As crianças tendem a imitar o comportamento dos pais. Ao limitar seu próprio tempo de tela, você envia uma mensagem positiva sobre a importância de buscar um equilíbrio saudável com a tecnologia.

Converse abertamente sobre o uso de tecnologia: Discutir os prós e contras do uso de dispositivos eletrônicos ajuda as crianças a compreenderem o impacto das telas em seu bem-estar. Esses momentos são oportunidades para ensinar sobre autorregulação e escolhas conscientes.

Priorize o sono e o descanso: Estabeleça uma rotina de sono que inclua desligar os dispositivos pelo menos uma hora antes de dormir. Isso garante um descanso de qualidade, promovendo uma mente equilibrada e um corpo mais saudável.

Buscando Ajuda: Quando o Uso de Tela se Torna Preocupante?

Embora o uso de tecnologia faça parte da vida moderna, é importante observar sinais de que o tempo de tela pode estar afetando a saúde mental do seu filho. Sinais como irritabilidade, isolamento, falta de interesse em atividades fora do ambiente digital e mudanças bruscas no humor podem indicar que o uso de dispositivos está se tornando prejudicial.

Nesses casos, buscar apoio de profissionais de saúde mental é essencial para entender melhor a situação e traçar estratégias personalizadas para promover o equilíbrio. Psicólogos especializados em desenvolvimento infantil podem ajudar pais e filhos a trabalharem juntos para melhorar a saúde mental e o bem-estar.

Criando um Ambiente de Apoio e Equilíbrio para os Pré-Adolescentes

Como pais, é possível criar um ambiente onde a tecnologia seja usada de forma saudável e equilibrada, garantindo que as crianças aproveitem as telas sem que isso afete seu desenvolvimento emocional. O papel dos pais não é eliminar a tecnologia da vida dos filhos, mas orientar e estabelecer limites que promovam um desenvolvimento saudável, ensinando-os a encontrar prazer em atividades que também nutrem seu crescimento emocional e físico.

Bibliografia

Nagata, J. M., Cortez, C. A., Cattle, C. J., Ganson, K. T., Iyer, P., & Bibbins-Domingo, K. (2024). Screen time and mental health symptoms in 8- to 10-year-olds: Findings from a two-year study. BMC Public Health. Disponível em https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/ 

Twenge, J. M., Martin, G. N., & Campbell, W. K. (2020). Decreases in psychological well-being among American adolescents after 2012 and links to screen time during the COVID-19 pandemic. Journal of Adolescent Health, 66(6), 730-736. https://doi.org/10.1016/j.jadohealth.2020.03.013

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