A adolescência é uma travessia. Muito mais do que uma fase rebelde ou de descobertas, ela é um verdadeiro processo de luto. Isso mesmo: luto. O adolescente está, essencialmente, enterrando quem ele era para dar lugar a quem está se tornando. Mas não se engane, ele não está apenas dizendo adeus à infância; ele está enfrentando três grandes perdas: o luto pelo corpo infantil, pela identidade de criança e pelos pais que ele conhecia.

O Luto pelo Corpo: Quando o Espelho é um Estranho

O corpo adolescente não é apenas um corpo em crescimento — é um corpo em transição. De repente, aquela imagem familiar do espelho começa a se distorcer. O corpo infantil desaparece e dá lugar a algo novo, algo que muitas vezes parece estranho e fora de controle. Não é incomum que, nesse momento, o adolescente olhe para si mesmo com desconforto ou até repulsa. Afinal, ele está perdendo o que conhecia, sem saber o que exatamente está ganhando.

A maior ajuda que você, como pai ou mãe, pode oferecer não é uma palestra sobre “como o corpo está apenas mudando” ou “isso vai passar”. A realidade é que, no calor desse luto corporal, seu filho não precisa de explicações racionais. Ele precisa que você o ajude a reconhecer a dor dessa transformação. Ele está se despedindo de um corpo que foi seu por toda a vida até agora.

Que tal uma abordagem prática? Mostre seu próprio processo. Fale de mudanças que você já viveu no seu corpo ao longo da vida — de cicatrizes, da gravidez, de envelhecimento — e de como você também teve que se reconciliar com o espelho em diferentes momentos. Isso traz humanidade à conversa. Ele não quer apenas entender que “vai passar”, ele precisa ver que essas transições são parte da vida de todos, até dos pais.

O Luto pela Identidade: Quando Não Sabemos Quem Somos

Durante a infância, a identidade do seu filho era clara. Ele era “o filho”, o “pequenino”, “o protegido”. Mas, de repente, ele não cabe mais nesses rótulos, e o que surge é uma confusão sobre quem ele realmente é. A adolescência é uma fase de desconstrução da identidade infantil, e o luto por essa perda é intenso.

E aqui vai o ponto central: não tente definir quem ele deve ser. O erro comum é querer encaixá-lo em uma nova identidade rapidamente, como se o objetivo fosse encontrar a nova “caixa” onde ele vai se sentir confortável. No entanto, essa busca leva tempo, e ele precisa que você seja o espaço seguro para a sua indefinição. Permita que ele seja contraditório, confuso e instável.

Uma ideia autêntica para ajudar nesse processo é celebrar a incerteza. Ao invés de forçá-lo a decidir o que quer fazer da vida aos 15, por que não estimular pequenas explorações? Proponha que ele tente coisas novas: um curso rápido, um projeto criativo, um esporte, uma viagem. Não como quem busca uma resposta final, mas como quem abraça a jornada de descobertas.

O Luto pelos Pais: Quando os Heróis Caem

Este pode ser o luto mais difícil de todos: o luto pelos pais da infância. Quando criança, você era o super-herói, a figura infalível. Agora, na adolescência, seu filho começa a enxergar suas falhas, suas imperfeições. Ele percebe que você também erra, e isso pode ser desestabilizador. O adolescente está dizendo adeus ao “pai ideal” e tentando entender quem é essa pessoa real à sua frente.

Aqui, a solução não é tentar restaurar a imagem de herói. Pelo contrário, é hora de abraçar sua humanidade. O adolescente precisa ver que você é falível e, mais importante, que está tudo bem ser falível. Diga que errou, mostre que está aprendendo junto com ele. Isso cria uma conexão mais forte do que qualquer fachada de perfeição.

Que tal propor algo inesperado? Em vez de manter a hierarquia inabalável, desça do pedestal. Convide seu filho para fazer algo em que ele é melhor que você. Peça que ele te ensine algo — seja mexer em uma tecnologia nova, praticar um esporte ou entender uma nova tendência cultural. Isso não apenas mostra que você aceita sua vulnerabilidade, mas também coloca seu filho em uma posição de protagonismo, ajudando a fortalecer sua autoconfiança.

Permita o Luto, Celebre a Mudança

A adolescência é um período de despedida. O adolescente está enterrando o corpo, a identidade e os pais que conhecia. E esse luto precisa ser respeitado, não negado ou apressado. É doloroso, mas também incrivelmente belo, porque desse processo de perda nasce a maturidade, a autonomia e uma nova forma de amor.

Ao reconhecer que seu filho está vivenciando esses lutos, você permite que ele se transforme de maneira saudável, sem sentir que está “errado” por estar confuso ou perdido. Afinal, essa confusão é parte essencial do processo.

Como pais, nosso maior desafio não é controlar ou resolver, mas acompanhar e apoiar — oferecendo uma presença firme, porém humana; dando espaço para que eles se desfaçam de quem eram e descubram quem estão se tornando.

Seja vulnerável, seja presente e, acima de tudo, seja real.

Pr. Nícolas Bastos

Coordenador do Programa Batista Família

 

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