CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O ser humano é um ser de cultura, ou seja, ele se faz por meio de significados e sentidos, tendo que se construir, o que se dá por meio de suas relações. Isso o diferencia dos demais seres vivos que nascem geneticamente programados. O bebê humano precisa do cuidado e atenção de outro para sobreviver.
Este cuidado vai além de suas necessidade físicas, estendendo-se às necessidade psiconoéticas. Como um ser que não nasce pronto, precisa se constituir como sujeito de sua história. Portanto, o aprendizado que ocorre em suas inter-relações, deve incluir a história familiar, bem como, os valores religiosos. O lar é o primeiro espaço do aprendizado e da vivência da fé.
Tradição é compreendida como “conjunto de costumes sociais ou outras práticas étnicas ou familiares passadas de uma geração para outra” (APA), portanto, diz respeito à história, a herança do grupo, apontando para uma verdade axiomática: não estamos sozinhos!
I. A Importância da Tradições Familiares
Como seres simbólicos, as tradições exercem um papel significativo no seio familiar, pois, contribuem para criar um senso de pertencimento, de continuidade e estabilidade, ligando o passado ao presente, de maneira a orientar as novas gerações sobre suas raízes, valores e princípios familiares. Manter viva esta memória, fortalece os laços do parentesco, aumenta a intimidade, a comunhão e união na família.
Estabelecer momentos institucionais, nos quais a família reunida, celebra a sua existência, comemorando aniversários, datas significativas, contribui para o fortalecimento da identidade individual e coletiva, além de proporcionar a expressão de afeto, fortalecendo o emocional coletivo e individual, além de criar memórias afetivas, conectando com outras histórias dos membros da família.
Certamente, esses momentos são oportunidade de celebração, reconhecimentos e gratidão, quando juntos, cultivam a irmandade, gerando um sentimento de apoio e cuidado, em um ambiente de alegria e compartilhamento, fortalecendo os laços familiares e crescimento pessoal e coletivos.
Um exemplo nas Escrituras que aponta para o valor do ensino das tradições é a recomendação encontrada em Dt 6.1-9. Neste texto há a orientação para que os mandamentos, estatutos e preceitos (juízos) divinos, fossem transmitidos aos filhos. Para tanto, deveriam, antes, serem guardados no coração (v.6). Quem ensina precisa ter aprendido!
A partir do v.7 encontramos a orientação direta aos pais que tem o privilégio e a responsabilidade de ensinar os filhos, aguçando em suas mentes, o gosto pela Palavra de Deus. A ideia da expressão usada – inculcar – é ensinar incisivamente, como um objeto ponto agudo que escreve nas tábuas de pedra, assim devem ser ministrados os valores e princípios sagradas. A didática a ser usada nos é apresentada como vida na vida. O ensino deve ser diário, tanto formal como informal, assentado no ambiente do lar, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se. O uso de recursos visuais, cujo propósito é dar visibilidade à Palavra de Deus, tais como sinais na mão e na testa, mais do que práticas ritualistas de base concreta, deveriam ser formas de testificar o que estava interiorizado no coração.
O Shemá era uma confissão de fé que os judeus recitavam, de maneira que, além de ser decorado, deveria ser interiorizado e ensinado, às crianças (v.7a), falada de dia e de noite (v.7b), e atada na mão e na testa (v.8). Este procedimentos, mais do que recursos didáticos, indica a prática da Palavra que precisa estar na vida cotidiana, tanto dentro da casa, como fora, ou seja, ensinar em todos os lugares e o tempo todo. O que se faz fora de casa como expressão da religiosidade, deveria ser prática em casa, apontando para a coerência e integridade.
Quando há coerência entre a vida no lar (dentro) com a vida lá fora, abre-se a porta para celebrar a fé em casa.
II. O Valor da Vivência da Fé na Família
É ponto passivo que cabe aos pais a condução da vida em família. Portanto, orientar os filhos em sua caminhada espiritual é um desafio que deve ser vivido como um privilégio e responsabilidade. Cultivar os momentos de fé, reservando um tempo e local, para que todos estejam em torno da Palavra de Deus, aprendendo sobre o evangelho, além de ser um tempo de crescimento, oportuniza instantes de comunhão uns com os outros e com Deus.
Este tempo de comunhão deve ser dividido com momentos de cânticos, leitura da Palavra de Deus, compartilhamento do que cada membro aprendeu com a leitura, pedidos de oração e oração. O importante é que cada membro da família participe tendo como líder o pai (em sua ausência, outra pessoa deve assumir este compromisso) conforme Jó 1.5.
As celebrações religiosas em família desempenham um papel significativo, estabelece momentos de comunhão e compartilhamento, onde a prática religiosa da família, fortalece o vínculo familiar e a conexão com o Sagrado.
Por meio delas, fortalece-se a identidade familiar, transmite valores morais e espirituais, oferecendo um espaço para reflexão, gratidão, bem como, a promoção de apoio, uma vez que, nestes momentos, há abertura para que cada membro apresente seus desafios pessoais, e todos podem interceder a Deus a este favor.
A família de Jó é um exemplo destes momentos de celebração, dividindo tempos de festas com momentos de contrição e adoração. Contudo, com Josué aprende-se que é necessário uma tomada de posição conjunta. Em um momento crucial na história do povo de Israel, quando estavam recebendo a bênção prometida aos seus antepassados, desafia o povo dando seu próprio exemplo: “Mas, se vos parece mal cultuar o Senhor, escolhei hoje a quem cultuareis; se os deuses a quem vossos pais, que estavam além do rio, cultuavam, ou os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Mas eu e minha casa cultuaremos ao Senhor” (Js 24.15).
O texto mostra uma família se rendendo ao Senhor com disposição de servi-lo. Por meio desta decisão, eles demarcaram um marco divisor, não se deixando levar pela onda do momento, rompendo com o mau exemplo do passado e nem se deixando influenciar pela cultura daquela terra.
Desta forma, Josué mostra que sua decisão fortalecia os laços familiares, mostrando a unidade de sua casa. Eles estavam coesos e tendo líder e direção. Reafirmaram seus valores, não se deixando contaminar pelos maus exemplos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A vivência da fé é fonte de união, direção e valorização dos princípios espirituais, proporcionando aprendizado, camaradagem e temor a Deus. Celebrar estes momentos, certamente promove aproximação de todos, mas especialmente, cultiva a reverência àquele que merece toda honra, gloria e louvor.
Eis aí o desafio para sua família!
REFERÊNCIAS
Bíblia Sagrada Almeida Século 21. São Paulo: Vida Nova, 2010.
VANDEMBOS, Gary R. (Org.). Dicionário de Psicologia da APA. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Wagno Alves Bragança
Casado com Senhorinha Gervásio Lourenço Bragança, pai de Bruno, Breno e Wagno Junior. Pastor e psicólogo clínico, com mestrado em Educação Cultura e Organizações Sociais. Atuou como professor, administrador escolar e capelão no Colégio Batista Mineiro/BH. Atuou como coordenador do Instituto Hexis – Responsável pelo Programa BENE:) Formação Ética e Socioemocional, escritor de material didático. Palestrante em congressos e capacita-ções, com publicação em livros e periódicos.


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