Nossa identidade começa a ser formada em nossa infância, a partir do cuidado que recebemos de nossos pais, cuidadores e colaboradores no processo de educação. Criamos vínculos de afeto com pessoas de quem dependemos física e emocionalmente. Aproximadamente dos 0 aos 12 anos, experimentamos a partir destes vínculos, um ambiente onde nos sentimos seguros ou inseguros em nossas necessidades.
De acordo com Daniel Siegel, no livro Cérebro Adolescente, o vínculo afetivo seguro, estimula conexões integradoras do córtex pré-frontal, ligando o córtex, a área límbica, o tronco encefálico, permitindo maior equilíbrio entre corpo, emoções, tendo influência direta em nossa qualidade de vida social, aumentando a probabilidade de que na adolescência, esse período seja vivido de forma mais amena, diante da explosão de mudanças hormonais e dos desafios em seus meios sociais. A medida que transitamos da infância para a adolescência, a sensação de segurança que nos foi proporcionada por nossas figuras de vínculo é internalizada em nosso cérebro. Nos sentimos bem a respeito de quem somos e mais tranquilos em nossa conexão com os outros.
Enquanto pais de adolescentes podemos ser ao mesmo tempo um “porto seguro” e uma “plataforma de lançamento”. Tomo emprestada essa metáfora utilizada por Siegel fazendo as devidas adequações a partir das minhas impressões profissionais, de como esse comportamento dos pais pode auxiliar na formação da identidade de seus filhos.
Assim como numa plataforma de lançamento onde calculamos a projeção de um foguete, podemos lançar nossos filhos adolescentes em direção ao que há de bom e belo no mundo, aquilo que vale a pena ser explorado além das fronteiras de nosso lar, com responsabilidade, sem abrir mão de nossos valores, em aventuras que valem a pena ser vividas. Na adolescência surge o impulso de testar os limites e a paixão por explorar o desconhecido. Se toda essa energia e força for devidamente conduzida, através de conversas, reflexões sobre consequências, definições de limites, combinados; podemos conduzi-los a uma vida cheia experimentações em busca de sentido. Enquanto pais é extremamente importante ficar atentos às inclinações, talentos, interesses, habilidades e paixões de nossos filhos para que não os projetemos de forma injusta e errônea em direção aos nossos próprios sonhos, realizando na vida dos filhos aquilo que não realizamos em nossas próprias vidas.
Também é essencial perceber em quem seus filhos estão se projetando, o que ou quem admiram, o que desejam, quais tem sido seus influenciadores. Antes de critica-los, só observe e tente entender qual é a isca no coração de seu filho. Aquilo que admira e deseja pode revelar uma necessidade em seu coração, por exemplo, ser reconhecido, aceito e admirado. Ajude seu adolescente a pensar a médio e longo prazo sobre o estilo de vida que ele só percebe a curto prazo, sem pensar nas consequências.
Por outro lado, assim como um porto seguro, podemos acolher nossos filhos quando estiverem cansados, desanimados, com medo, confusos; para que tenham para onde voltar, chorar, descansar, ser ouvidos quando a experiência “der ruim”, sentindo-se acolhidos por alguém que escuta, conhece suas particularidades, supre necessidades, acalma, encoraja e corrige quando necessário. Essa é a melhor hora de ajuda-los a refletir sobre as consequências de seus atos e a pior hora para culpar, condenar, humilhar e jogar peso sobre o que fizeram.
É claro que além dos vínculos de afeto, outros fatores influenciam a formação da nossa identidade como traços do temperamento geneticamente definidos, questões histórico-culturais, socioeconômicas; além de questões específicas do momento em que vivemos, como a hiperestimulação dos meios virtuais, tanto a nível de quantidade de informação, quanto os novos padrões relacionais em jogos, aplicativos, comunidades e redes sociais. Como pais podemos focar naquilo que temos controle, no que podemos proporcionar de afeto em vínculos saudáveis.
Podemos buscar autoconhecimento, aperfeiçoamento em nossas habilidades interpessoais e servir de modelos de seres humanos imperfeitos que buscam melhorar a cada dia, que fazem o melhor que podem frente aos desafios da vida.
Anísia Rosas
Psicóloga Clínica, cristã, casada, mãe e ex-aluna do Colégio Batista Mineiro. Atuante há 21 anos na profissão, trabalha com Psicologia Comportamental e Análise do Comportamento com crianças, adolescentes e adultos. Escritora e palestrante em oficinas e eventos. Especialização em Psicologia da Educação com ênfase em Psicopedagogia preventiva.


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