“Tudo tem seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo dos céus (…). Tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou (…) Tempo de abraçar, tempo de afastar-se de abraçar.” Eclesiastes 3.1-2;5

Para trazer um adolescente de seu mundo “irreal” para a realidade da vida em família, é necessário ter uma família presente no seu mundo real. A frase parece redundante, mas vou explicá-la.

Como esperar de um adolescente que se aproxime de sua família se seus familiares são distantes, isolados nos seus afazeres, fixados nos seus ideais, sem interesse sincero uns pelos outros, cada qual com seu programa, sem tempo de qualidade, vivendo juntos debaixo do mesmo teto, mas com os corações separados?

Trazer os filhos para a realidade em família é como cultivar um jardim. A relação precisa ser regada e podada quando necessário. A terra precisa ser afofada com afeto, ervas daninhas precisam ser identificadas e arrancadas. É preciso ter equilíbrio, onde os pais assumem sua autoridade, sendo ao mesmo tempo firmes e respeitosos no falar. Todo “esterco” pode ser transformado em adubo para o crescimento, e os erros, vistos como oportunidades de aprendizado.

É necessário jogar luz e ter coragem para olhar para o próprio coração e reconhecer o que precisa ser melhorado na relação com a família e no comportamento pessoal. Não adianta criar expectativas de que em uma roseira poderá brotar uma margarida, nem plantar uma bananeira esperando colher morangos. É necessário respeitar a natureza e o tempo de cada flor do jardim. Assim também é com cada filho, cada um com um temperamento e uma personalidade diferente. Somente aprendendo a observá-los, a ouvi-los atentamente, reconhecendo seu jeito único de existir, é que abrimos a porta da aproximação.

É preciso respeitar a necessidade dos adolescentes de se aproximarem de outras pessoas, de fazerem voos mais longos, tendo experiências fora do ambiente familiar. Mas isso não elimina a possibilidade de manter um ninho aquecido para onde desejem voltar quando estiverem cansados ou confusos em seus voos. Nosso lar deve ser mais ninho e menos gaiola.

Como esse cultivo pode ser feito na prática?

Celebre pequenas conquistas de seu filho, valorize seus esforços para vencer os desafios do dia a dia, observe no que ele é bom, preste atenção no que ele se interessa, aprenda a escutá-lo com interesse sincero, não apenas para vigiá-lo e garantir o controle. Ajude-o a refletir sobre aquilo que admira ou deseja, pensando nas consequências a médio e longo prazo.

Evite impor sua vontade e colocar-se como o dono absoluto da razão. Ore por ele e, principalmente, com ele. A oração aumenta os laços de afeto e, como a neurociência descobriu, melhora o funcionamento do córtex pré-frontal, uma área do cérebro ligada à tomada de decisões.

Diga o quanto o ama, crie memórias de afeto no ambiente familiar (uma parede com fotos de momentos importantes da família pode ser uma boa opção). Façam refeições juntos sempre que possível, zelando para que esse momento seja agradável, e, se possível, sem a presença de celulares.

Ofereça momentos de lazer em família, dando preferência a ambientes naturais. Desconecte-se temporariamente das telas e reconecte-se com sua família. Pesquisas recentes sugerem que práticas na natureza aumentam a criatividade, a gentileza e a empatia, reduzem os hormônios do estresse, ajudam a combater a depressão e melhoram o desempenho de funções cognitivas. Todos serão beneficiados!

Cuide bem do seu “jardim familiar” e, no devido tempo, verá flores e frutos brotando em sua casa. Mas lembre-se: educar, assim como cuidar de um jardim, dá trabalho, cansa, mas é altamente terapêutico e revigorante. Não desista de sua semeadura! O Deus Criador é quem verdadeiramente faz nossos filhos crescerem e frutificarem!

Anísia Rosas
Psicóloga Clínica, cristã, casada, mãe e ex-aluna do Colégio Batista Mineiro. Atuante há 21 anos na profissão, trabalha com Psicologia Comportamental e Análise do Comportamento com crianças, adolescentes e adultos. Escritora e palestrante em oficinas e eventos. Especialização em Psicologia da Educação com ênfase em Psicopedagogia preventiva.

Deixe um comentário