Como assim, “não gostar de estudar”? O que está por trás dessa complexa afirmação?
É preciso ter um olhar cuidadoso para as prováveis causas e entender por que essas crianças e adolescentes estão desmotivados com o aprendizado.
Quando falamos sobre a tarefa de estudar, é fundamental também pensar na aprendizagem. Essa é uma conexão importante, pois quem sabe estudar, sabe aprender. É preciso que cada estudante se descubra como aprendiz e, acompanhado pelo olhar atento da família, vivencie esse processo encantador.
A habilidade de estudar permite a construção de diversas aprendizagens, especialmente as socioemocionais e acadêmicas, tendo como referência o que se aprende em casa e na escola. Vocês, pais e mães, podem estar se perguntando sobre o significado da expressão “habilidade de estudar”. Essa habilidade envolve um conjunto de comportamentos e atitudes que favorecem o prazer de aprender e não estão exclusivamente conectados aos conteúdos escolares desenvolvidos na escola, mas também a como se aprende e às condições para a aprendizagem. Acredito, sem medo de errar, que todos gostariam de ter seus filhos engajados, com um perfil de estudantes ativos, aqueles que se dedicam aos estudos e, consequentemente, à aprendizagem, desenvolvendo uma relação de protagonismo e prazer com seu ofício de estudante.
Ouvi certa vez que “ninguém aprende a estudar naturalmente” e ampliei: as habilidades de estudo precisam ser ensinadas, envolvendo comportamentos, padrões e acompanhamento.
É surpreendente a chamada para essa reflexão: “Meu filho não gosta de estudar!” Como especialista, expresso grande preocupação com essa condição que, se já estabelecida na família, constitui um prejuízo significativo para o desenvolvimento escolar saudável dos estudantes, sejam eles crianças, jovens ou até mesmo adultos.
Aprender é condição para a nossa sobrevivência e, neste mundo em constante transformação, essa ação de “aprender” pode acontecer com todas as pessoas, de várias maneiras, cada qual com suas singularidades e especificidades, como nos ensina a Neurociência Cognitiva.
Nesse sentido, podemos e devemos repensar essa crença limitante que impacta o desenvolvimento pessoal e escolar dos estudantes, desenvolvendo junto a eles a habilidade de estudar, que permitirá o alcance de aprendizagens cada vez mais qualificadas. Tornar essa habilidade primordial na vida, para toda a vida e para todas as pessoas, é fundamental.
Antes de prosseguirmos, chamo a atenção para o significado da expressão “crenças limitantes” e a influência delas na vida dos mais jovens, que as aceitam como verdades absolutas e as usam como guias para seus comportamentos. Essas crenças são como barreiras mentais construídas ao longo da vida dos estudantes e que interferem no seu desenvolvimento saudável. Estabelecem-se por meio de “pseudoverdades”, ideias que vão se enraizando emocional e cognitivamente, incorporadas como verdades absolutas.
Tomemos como exemplo: “Meu filho não gosta de estudar.” Essa, como outras afirmações repetidas inúmeras vezes, passa a ser acreditada pelos estudantes, especialmente quando dita pela família. Os estudantes, nesse caso, ancoram-se a elas como verdades, atribuindo-lhes crédito e validade, por partirem, muitas vezes, das pessoas de referência em suas vidas, como o pai e/ou a mãe.
Por outro lado, podemos falar da importância das expectativas positivas dos pais em relação aos seus filhos, como proteção e fomento ao desenvolvimento socioemocional e escolar. De antemão, adianto que não estou recomendando que as possíveis dificuldades que os filhos experimentam nos estudos e, consequentemente, na aprendizagem, sejam ignoradas. Precisamos valorizar o aprender e o aprendiz, enxergando as possíveis dificuldades e colocando-nos na condição de ajudadores dos filhos, abolindo julgamentos que podem ferir a autoestima e o sentimento de autoconfiança para realizar o seu ofício de estudante com segurança e êxito.
A escola é o apoio profissional no qual as famílias podem confiar para orientá-las em relação às melhores condições de aprendizagem. O trabalho conjunto aumenta a possibilidade de potencializar os estudos, trazendo aos estudantes as atitudes, ações e acompanhamentos necessários e favoráveis para seu percurso.
Sabemos que o mundo está em constante transformação, assim como a escola, o trabalho e a vida das pessoas. Estamos todos, gradativamente, nos adaptando a uma nova lógica de estudo, de aprendizagem, de trabalho e de vida, assim como às condições para as nossas realizações. Conhecer esses movimentos é importante para que as orientações estejam em consonância com as demandas da atualidade.
Precisamos nos fortalecer como escola e família, caminhando juntos, para garantir um percurso de aprendizagem escolar coeso. Estamos tratando aqui de uma temática extremamente importante e fundamental para toda a vida, que é a capacidade de aprender sempre, o “lifelong learning”, termo em inglês que significa “aprendizado ao longo da vida”. E é assim que precisamos, independentemente de onde estamos, crescer e nos desenvolver, aprendendo sempre. Dito isso, trago orientações de como vocês, pais e mães, podem auxiliar os seus filhos nos seus percursos únicos de desenvolvimento:
- Garantam aos seus filhos, desde o início da escolarização, o incentivo adequado para a consolidação dos hábitos de estudos e o desenvolvimento da consciência sobre a importância da escola e da aprendizagem para a vida e, como eles, estudantes, podem comprometer-se e engajar-se para aproveitarem o melhor das experiências educativas ofertadas.
- Valorizem a escola que escolheram para os seus filhos aprenderem, fortalecendo essa parceria e garantindo aos filhos um acompanhamento criterioso e amoroso a favor do aprender.
- Confiem na capacidade dos filhos para se conectarem e desenvolverem-se, a partir de suas singularidades, com as inúmeras experiências de aprendizagem qualificadas oferecidas pela escola. Lembrem-se: cada estudante é único, um indivíduo que não deve ser comparado com ninguém.
- Acreditem que as crenças limitantes podem tirar de um estudante a alegria, o prazer e a motivação para aprender, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos. Acreditem, igualmente, que as expectativas positivas de vocês, pais e mães, podem alavancar o desenvolvimento saudável dos filhos, para que vivam as experiências educativas na escola com alegria, prazer e protagonismo, estando motivados para aprender sempre.
- Invistam nas melhores condições para otimizar o estudo e a aprendizagem dos filhos. Esse parâmetro é mais saudável do que limitá-las. Estejam atentos à organização do espaço e do tempo diários de estudos, monitorando os resultados de aprendizagem dos conteúdos escolares e das habilidades de estudos que se desenvolvem, a partir do cuidado dispensado por vocês, sobre as melhores estratégias para aprenderem mais e melhor.
- Desenvolvam uma escuta ativa da escola, para conhecerem mais sobre os filhos naquele ambiente, no relacionamento com seus pares e professores, com os desafios propostos pelo conhecimento e pela relação com as orientações gerais da escola.
- Acompanhem o desenvolvimento pessoal e escolar dos filhos, identificando as possíveis dificuldades e procurando ajudá-los na solução, com o apoio da escola.
- Acompanhem o processo de desenvolvimento das habilidades de estudos. Vocês, pais e mães, são insubstituíveis nessa responsabilidade e nesse acompanhamento fundamental para a vida, mesmo que deleguem a alguém para apoiá-los.
- Criem estratégias que fomentem o interesse e o comprometimento dos filhos pelos estudos e pela aprendizagem. A organização dos estudos em casa, planejada junto com o(a) estudante, fará diferença nos resultados de aprendizagem conquistados.
- Sejam presentes no estabelecimento de uma rotina de estudos em casa, acompanhando os filhos para que, gradativamente, sejam protagonistas, autônomos e possam assumir com mais independência e êxito os seus estudos, a sua aprendizagem, a sua vida.
- Incorporem as tecnologias como apoio para potencializar as aprendizagens. Elas são um excelente recurso se utilizadas de forma sustentável. Infelizmente, crianças, adolescentes e adultos estão excessivamente expostos às telas, causando inclusive vários problemas de saúde mental e impactando negativamente o desenvolvimento pessoal, social, escolar e até mesmo espiritual das pessoas. A atenção e o cuidado são fundamentais e motivo de alerta. Dizer não à tecnologia é caminhar na direção oposta das tendências para o futuro, incluindo o tempo presente, cada vez mais tecnológico e totalmente incorporado à vida diária. Dizer sim à tecnologia significa conhecer seus parâmetros, benefícios e dificuldades, monitorando e cuidando para que seu uso pelas crianças e adolescentes não prejudique seu desenvolvimento escolar e as demais dimensões humanas do desenvolvimento. Vale lembrar que as tecnologias digitais educacionais podem ser úteis para a aprendizagem. Devem ser, portanto, conhecidas e acompanhadas em sua utilização, resguardando o tempo de relacionamento entre as pessoas, especialmente no núcleo familiar.
- Incentivem o ofício de estudante. O trabalho das crianças e adolescentes é a aprendizagem construída diariamente na escola e em casa, destacando-se as habilidades socioemocionais, de estudo e de vida. Essas habilidades, mediadas afetivamente por vocês, educadores de casa, e pelos educadores da escola, serão enraizadas e potencializadas para o desenvolvimento saudável.
“Ensina o teu filho no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Provérbios 22.6)
Junia Batista Tavares Marcossi
Esposa do Martinho, mãe do Diego e da Lívia; avó do Samuel. Ex-estudante do Colégio Batista Mineiro, onde atuei na Equipe Técnico-Pedagógica por vários anos, na Unidade Floresta-BH. Sou professora, graduada em Psicologia, com especialização em Orientação Profissional e de Carreira, Psicopedagogia, Psicologia Escolar e Educacional pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia) e em Neuroeducação. Graduada do Curso Tecnólogo em Ciência da Felicidade. Gosto de gente e de gerar oportunidades para o desenvolvimento humano e acredito no relacionamento entre Famílias e Escola, gerando conhecimentos, habilidades, atitudes e valores, por meio de experiências educativas de orientação e aprendizagens contínuas.


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