Parece paradoxal, mas a fé pressupõe e permite a dúvida, uma vez que somos seres racionais. Questionamos a realidade, tanto interna quanto externa, material e espiritual. A dúvida, portanto, nos permite encontrar a certeza, aliviar a angústia do não crer e nos fortalecer na fé como âncora da alma (Hebreus 6.18-20).
A vida com Deus é uma caminhada de aprendizado, e sua primeira escola é o lar, tendo como mentores os pais. Tudo começa na família, e, embora tenhamos dentro de cada um de nós o princípio da eternidade (Eclesiastes 3.11), precisamos ser conduzidos na esperança eterna (Provérbios 22.6). Aprendemos sobre Deus e a vida cristã com nossos progenitores.
Dessa forma, somos, como pais, confrontados com o desafio de ajudar nossos filhos em seus momentos de incerteza e questionamento sobre a realidade de Deus. O que fazer quando a espiritualidade dos filhos é abalada?
Iniciemos pelo entendimento do que é espiritualidade!
Embora não tenha relação direta com a religião, é na vivência religiosa que a espiritualidade encontra sua maior expressão, visto que essa é o sentido último da existência humana. Temos em nós o sopro divino, que nos permite a comunhão com o eterno, sendo a religiosidade “uma das formas do ser humano se constituir como ser-no-mundo e, certamente, a sua dimensão religiosa” .
Por isso, falar da religiosidade é falar de espiritualidade em seu sentido mais amplo, manifestando-se nas várias atividades humanas, como a arte, a ciência, a filosofia e a religião .
Dessa forma, podemos entender a espiritualidade como “qualidade do que é espiritual”, referindo-se à vida “piedosa”, que, no dizer de Russell Shedd, “significa a busca e a própria experiência da comunhão com Deus. Inclui a expressão dessa convivência a partir de práticas que agradam ao Criador” .
Nossos filhos enfrentam crises em suas vidas e em sua espiritualidade – ou seja, sua relação com Deus – como toda a humanidade. Contudo, como ocorreu com Tomé, a experiência da incredulidade precede à da fé (João 20.24-31). Ausente na reunião daquele dia, Jesus aparece ressuscitado aos seus discípulos. Quando Tomé ouve falar dessa aparição, diz que só acreditaria se tocasse em suas feridas (v.25). Oito dias depois, Jesus aparece novamente, e desta vez Tomé está presente. O Mestre se oferece para ser tocado, orientando-o a não ser incrédulo, mas crente (v.27). Tomé, porém, desiste de seu empirismo e profere uma das mais belas declarações de fé: “Senhor meu e Deus meu” (v.28). A realidade do Cristo ressuscitado se manifesta aos seus olhos de forma suficiente, visto que a experiência da fé precisa ser, antes de tudo, um encontro de almas, na experiência subjetiva da rendição ao Criador, sendo este, sobretudo, um mistério revelado àquele que busca sinceramente.
Tomé desejava crer, embora pensasse em uma experiência concreta do toque físico, que diante da visão gloriosa do Cristo em vida, tornou-se desnecessária. A realidade divina se revela aos olhos daquele que procura, pois quem busca, encontra; ao que bate, a porta se abrirá; e quem pede, recebe (Mateus 7.7-8).
Como Jesus, os pais precisam acolher os filhos em seus momentos de perda da perspectiva da fé. Desafiá-los a crer, por meio de uma vida exemplar, é essencial, uma vez que a fé é uma atitude, fruto da escolha de cada um, uma resposta à proposta divina.
Crer é uma decisão da vontade, despertada pelo ensino modelar, como o de Abraão e Isaque (Gênesis 22), que caminhavam juntos em direção ao Monte Moriá. Abraão, desafiado a sacrificar seu filho em um ato de obediência inconteste, e Isaque, que pensava ser mais um momento cúltico com seu pai, percebe que faltava um elemento para o culto e pergunta: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” (v.7), ouvindo a resposta: “Meu filho, Deus mesmo proverá o cordeiro” (v.8).
É na caminhada com seu filho, em obediência a Deus, que ele fortalecerá seu relacionamento com o eterno e vencerá seus momentos de fragilidade. Por isso, Deuteronômio 6.4-9 orienta a ouvir os conselhos sagrados – a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus –, amar de todo o Coração, Alma, Forças e, no Novo Testamento, acrescenta-se Entendimento (Lucas 10.27), indicando a forma como deveria ser o ensino aos filhos: em casa, no caminho, ao deitar e ao levantar (v.7), e utilizando-se de recursos visuais (v.8-9).
O ensino formal das Escrituras, nos momentos dedicados para isso, e o informal, que se manifesta na dinâmica diária, estabelecerão a base sobre a qual a espiritualidade deles será construída. A vida observada, espelhada no exemplo dos pais, é a prova mais real da existência divina. Portanto, viva a vida com Deus, e ela será a grande escola, o mais elevado ensino a ser ministrado a cada momento aos seus filhos.
Wagno Alves Bragança
Casado com Senhorinha Gervásio Lourenço Bragança, pai de Bruno, Breno e Wagno Junior. Pastor e psicólogo clínico, com mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais. Atuou como professor, administrador escolar e capelão no Colégio Batista Mineiro/BH. Atuou como coordenador do Instituto Hexis – Responsável pelo Programa BENE:) Formação Ética e Socioemocional, escritor de material didático. Palestrante em congressos e capacitações, com publicações em livros e periódicos.
BRAGANÇA, Wagno Alves. Subjetividade religiosa: o trânsito religioso e a busca de sentido. Belo Horizonte: Livraria e Editora CBM, 2022, p.23.
SHEDD, Russell P. “Em Busca da Genuína Espiritualidade.” In: BOMILCAR, Nelson. Org. O Melhor da Espiritualidade Brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.37.


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