FAMÍLIA, BASE PARA A VIDA: VIOLÊNCIA E SEGURANÇA. COMO IDENTIFICAR COMPORTAMENTOS DE RISCO NOS FILHOS. 

Nesta entrevista, vamos conversar com a
Psicóloga
Wisllaine Cavalari que trabalha junto ao cuidado de famílias e
estudantes que sofrem com a violência e entender como podemos ajudar nossos
filhos e alunos diante da necessidade de equilíbrio e segurança.
 

BF: Olá, Sra.  Wisllaine! É uma grande alegria podermos
conversar sobre esse tema tão delicado. Conte-nos um pouco sobre sua formação e
área de atuação!?

Wisllaine: Sou formada em Psicologia pela PUC, em Londrina, no Paraná, e
estou finalizando o terceiro ano da formação em Terapia de Família e Casal pelo
Instituto da Família – FTSA. Atualmente, trabalho com atendimento clínico
individual de adolescentes e adultos, além de realizar atendimentos de famílias
e casais.

Recentemente, por iniciativa também de outras colegas psicólogas –
Quésia Oliveira, Juliana Lucareviski e Natália Zanuto (representando a Rede
Solidária da Associação de EMDR do Brasil) iniciamos um projeto de intervenção
e acolhimento aos adolescentes e famílias e funcionários da Escola Estadual
Helena Kolody, em Cambé, PR, cidade vizinha. Esta ação surgiu diante de um
massacre, onde um ex-aluno da referida escola entrou armado, realizou disparos,
causando a morte de dois alunos além de outros danos psíquicos. O projeto
contou com a parceria da Igreja Presbiteriana Independente de Cambé, através da
pessoa do Pr. Sérgio Perine, o qual cedeu o espaço da igreja para a realização
de palestras para pais e funcionários, para intervenção na Terapia EMDR (Eye
Movement Desensitization and Reprocessing
) – o que seria sobre a
Desensibilização e reprocessamento do
movimento da testemunha ocular
).  Juntos, conseguimos
organizar um grupo com mais de 30 psicólogos voluntários da região que se
disponibilizaram a também realizar atendimentos psicológicos sociais. O
trabalho segue acontecendo nas diferentes frentes, pois sabe-se que os danos
psicológicos precisam ainda de muita atenção e cuidado. Destaca-se que este foi
um trabalho voluntário da iniciativa privada, reconhecido pela Escola e seus
líderes, porém, não substitui as intervenções e condutas realizadas pelas
instituições de Ensino.

BF: É notório que os índices de violência têm
crescido assustadoramente em todas as esferas da sociedade. Em seu entendimento,
qual seria um fato ou fator preponderante que tem contribuído para esse
crescimento?

Wisllaine: Acredito que
as causas do aumento da violência estão ligadas a fatores estruturais e
sistêmicos, como a desigualdade social, a ausência de oportunidades, a convivência
em
ambientes de
muitos conflitos, o abandono familiar, a facilidade na aquisição e consumo de
álcool e outras drogas, atrelados à necessidade de pertencimento. Durante a
pandemia, os números cresceram muito, em todos os âmbitos, acredito que, neste
período, nossas interações sociais dependiam muito da tecnologia e, trancados
em casa, muitas vezes não dávamos conta de gerenciar de forma equilibrada
nossas emoções.
 

BF: Sabemos que
muitas famílias, hoje, vivem com medo e assustadas com a violência entre os
adolescentes e percebem que estão despreparadas para esse contexto. Qual sua
percepção a respeito disso?

Wisllaine: Os tipos de
violência que permeiam essa fase são diversos e é comum que os pais fiquem um
pouco inseguros durante essa fase. No entanto, devemos sempre nos lembrar de que
a violência está inserida em nossa sociedade há muito tempo, de diversas
formas. Percebo, principalmente nos últimos anos, muitos pais privando seus
filhos de saírem, desenvolverem relacionamentos, colocando-os em uma “bolha”
por excesso de zelo e proteção.

Acredito
que este não seja o melhor caminho, pois sabemos que todo excesso é
prejudicial! É importante haver diálogos com os filhos sobre os tipos de
violências, alertá-los quanto a isso e promover espaço onde eles possam
desenvolver confiança e segurança. É importante que frequentem ambientes onde
possam se relacionar com seus pares, aprendendo também a lidar de forma mais
assertiva com suas emoções. Render-se ao medo e ao desespero não é a solução,
pois as crianças acabam sendo influenciadas também pelo comportamento e
pensamento dos adultos. Com a alta dos casos de
bullying,
que também é uma forma de violência, é imprescindível que os pais, familiares e
até mesmo a comunidade escolar fiquem atentos às mudanças de comportamento e
promovam ações que vão ao encontro dessa demanda, já que, geralmente, as
vítimas têm vergonha e medo de falar sobre o assunto e sofrem caladas.

BF: Quais são, em sua opinião, os principais
fatores que podem levar um adolescente a se envolver com a violência?

Wisllaine: As causas da violência são complexas e acredito ainda ser um
desafio tentar explicar ou resumir tudo isso, pois os fatores acabam sendo
múltiplos e variam muito a depender do ambiente e da classe social! No entanto,
acredito que os principais fatores estão relacionados a falta de estrutura
familiar e à exposição de violência nesse ambiente. A falta de convívio
familiar leva à ausência de determinados valores em sua formação, logo, esse
afastamento parental, atrelada às demandas do mundo atual levam os filhos a
alguns comportamentos de risco. A valorização do TER ao invés do SER, o impacto
negativo da mídia, a busca por aceitação e pertencimento também faz com que os
adolescentes busquem itens de consumo de diversas maneiras – e a violência pode
ser uma delas.
 

BF: Como você avalia e diferencia um
adolescente com o comportamento considerado normal para a faixa etária de um
adolescente que apresenta sinais de potencial agressividade?

Wisllaine: Acredito que vale a pena a gente
ressaltar a diferença entre raiva e agressividade, já que a raiva é uma emoção
e a agressividade um comportamento. Sentir raiva é natural, já que ela faz
parte das principais emoções que sentimos. Ela surge como um sinal de alerta de
que algo que aconteceu e não nos agradou e a forma que vamos lidar com ela faz
toda a diferença. Já a agressividade, é um comportamento que no início da
socialização infantil, até certo ponto, é considerado normal como parte do
desenvolvimento da criança. O choro, tapas, mordidas vão acontecer no sentido
de tentar mostrar a frustração delas em relação aos seus desejos que não foram
atendidos. E é aí que os pais precisam desenvolver os limites e ensinar como
devem lidar com esses sentimentos de forma mais equilibrada. É fundamental que
a família faça esse movimento nessa fase para que, durante a adolescência, eles
saibam lidar com a raiva e a agressividade.

Essa orientação por parte da família
também é importante, pois na transição da infância para a adolescência, há
muitos elementos reflexos, até mesmo do processo de maturação cerebral, que costumam
deixar os sentimentos e emoções deles fora de controle. Além disso, estão muito
mais propensos a sentimentos de comparação e expostos à violência e
hostilidade. É comum que reajam com indiferença e apresentem agressividade se
estiverem confusos; fatores hormonais também contribuem para isso,
principalmente em meninos. Se esses comportamentos aparecem de forma recorrente
e em níveis altos, é importante que a família busque a ajuda de um
profissional.

BF: Quais estratégias e abordagens são mais
eficazes para lidar com adolescentes agressivos?

Wisllaine: O diálogo é a melhor maneira de se resolver conflitos, evitando-se
o confronto. E isso deve ser feito no ambiente familiar desde o início. É
importante, também, que os pais estabeleçam limites claros e de maneira firme e,
ao mesmo tempo, mostrando-se acessíveis, para que o adolescente também consiga
se abrir.

Os pais devem
buscar intimidade, buscar estar mais perto, fazendo atividades juntos, de forma
natural, para que eles também não se sintam sufocados ou pressionados.
Paciência e diálogo entre os pais é essencial para que consigam passar por essa
fase juntos. Alguns comportamentos podem ser transformados através do
autoconhecimento e mudanças de hábitos e quando não houver essa transformação
natural, a busca por ajuda profissional se faz essencial.

BF: Quais são os desafios mais comuns que você
enfrenta ao trabalhar com esses jovens e como consegue superá-los?

Wisllaine: Confesso que a parte mais desafiadora não é nem tanto em lidar com
eles, mas, sim, com a família. Existe muita comparação com sua época, como:  “na minha época não era assim”,
e precisamos lembrá-los constantemente que os tempos são outros e
novos desafios foram surgindo. Com essa ideia, os adolescentes costumam chegar
sempre com a sensação de que são sempre incompreendidos por suas famílias.
Acham que sempre que os pais tomam alguma atitude é para prejudicá-los e gera
mais conflito no lar. No fundo, o que falta realmente é orientação e abertura
para o diálogo. Então, busco sempre fazer sessões familiares e de orientação
educacional trabalhando os pontos de tensão, estreitando laços e promovendo
autoconhecimento, maior diálogo e melhor compreensão.

BF: Como podemos promover a empatia e a
consciência emocional nos adolescentes?

Wisllaine: Promovendo a escuta ativa, que é ouvir atentamente o que o outro
tem para dizer, tentando compreender as ações do outro, atreladas às suas
experiências de vida e, assim, ensinar os adolescentes a fazerem o mesmo. É
muito importante que os pais e educadores deem o exemplo. Jogos e brincadeiras
também podem auxiliar neste processo, além de práticas de voluntariado e
solidariedade. Os auxilie, a que sempre nomeiem o que estão sentindo e explique
sobre as emoções agradáveis e as desagradáveis.
 

BF: Como a família pode lidar com a raiva e a
frustração dos adolescentes e como pode ajudá-los a desenvolver habilidades de
controle emocional?

Wisllaine:  O primeiro passo
é entender que a raiva é uma das principais emoções que movem o ser humano,
então invalidar ou minimizar essa emoção não é o ideal. Ajude seu filho a
nomear aquela emoção que ele está sentindo e a valide, pois a validação faz com
que ele se sinta acolhido. É importante ressaltar que validar não é o mesmo que
concordar com o comportamento expressado. Podemos validar a emoção como a da
raiva, dizendo que compreende o que ele sente, porém posso explicar que o
comportamento usado para expressar essa raiva não foi o mais adequado, ajudando
a pensar em outras formas mais assertivas de se agir para extravasar essa
emoção. Vale lembrar que as crianças não nascem com a capacidade de regular
suas emoções, elas vão adquirindo esta habilidade através da sua interação com
o meio em que vivem e, principalmente, na interação com os pais.  Portanto, é importante que os pais desenvolvam
uma postura de empatia pelos seus filhos, ensinando-os a utilizar técnicas de
respiração e relaxamento, por várias vezes repetidas, até que perceba que ele
acalmou.

BF: Como as famílias podem orientar seus
filhos sobre os desafios dos relacionamentos com adolescentes que apresentam
comportamentos do risco e quais ações precisam ser feitas?

Wisllaine: É importante que a família converse abertamente com seus filhos
sobre os riscos de comportamentos perigosos e desenvolva com eles limites
claros. Deve instruí-los sobre a importância de se buscar amizades boas e
respeitosas, além de reforçar a importância de se afastar de situações
potencialmente perigosas.  A família deve
encorajá-los a andar em atitude de prudência e sempre buscar ajuda de um adulto
responsável, caso se sinta ameaçado diante de alguma situação. A escola pode
auxiliar com programas de prevenção e intervenção, como palestras educativas,
grupos de apoio e atividades extracurriculares que promovam habilidades sociais
saudáveis.

BF: Percebendo
que a situação do adolescente já está em um nível avançado de envolvimento com
a violência, quais medidas a família deve tomar?

Wisllaine: Buscar ajuda profissional de um psicólogo, médicos e outros
profissionais que possam investir e se envolver ativamente no plano de
tratamento do adolescente. Devem buscar redes e órgãos que trabalhem com outros
jovens e adolescentes nesta situação, a fim de se agregar conhecimento e ajuda à
família e ao adolescente. A primeira ordem é “Voltar para a base e desenvolver
novamente um bom relacionamento com esses adolescentes, buscando mais informações
sobre seus relacionamentos e ao que estão tendo acesso. Outra estratégia
prática é incentivá-los na prática de esportes, principalmente os de luta, pois
essas ferramentas os ajudarão a lidar com a agressividade de forma diferente,
determinando limites e embasamento em regras e valores, como o respeito, o equilíbrio
e a tolerância.

BF: Como as famílias podem apoiar a escola e
os próprios estudantes no que diz respeito à própria segurança e da comunidade?

Wisllaine: A família é
a base da formação do indivíduo e tem um papel decisivo na formação do caráter,
por isso, a participação direta na formação escolar da criança e do adolescente
é o primeiro passo. É muito importante que a família e a escola trabalhem
juntos para alcançar o objetivo de formar indivíduos capazes de viverem no
mundo atual. Com o aumento das “fake news” é ideal também que os pais busquem
sempre informações e orientações oficiais, a fim de não alimentarem o pânico e
o medo de toda a comunidade, preservando, assim, a saúde emocional das crianças
e adolescentes, para que os excessos de informações a que são expostos não lhes
traga dano.

É
dever dos pais resgatar valores de amor, empatia, solidariedade e conversar com
eles sobre tudo isso. Devem observar se existem mudanças bruscas e repentinas
de comportamentos, verificar com quem esses adolescentes têm se relacionado e a
que tipo de sites e materiais estão sendo expostos nas redes, sempre tendo
conversas claras sobre os limites.
 É vital que também orientem quanto ao uso dos
jogos e comportamentos que coloquem sua vida em risco, além conversas sobre
pressão de grupo, sexualidade, relação on-line e off-line, entre outros.

BF: O que pode ser feito pela família, escola
e outros grupos sociais para se evitar que a criança de hoje se torne um
adolescente agressivo, amanhã?

Wisllaine: Sem dúvida, o diálogo e o acolhimento são os principais caminhos no
combate à violência e agressividade. É muito importante criar relações seguras
para essas crianças e jovens.  Os pais e
familiares devem demonstrar interesse pelo universo deles e cultivar bastante a
confiança neles, para ouvi-los, receber suas queixas, sem tantos ataques e/ou
julgamentos, criando ambientes que façam com que eles reflitam sobre as
consequências de se ter uma atitude agressiva, mostrando sempre que existem
outras formas de expressar e de se resolver conflitos.  Devem sempre estar atentos às mudanças de
humor e mostrarem clareza na fala – o adolescente precisa ter objetividade do
que se espera dele. Acima de tudo, devem dar bons exemplos, pois os
adolescentes costumam espelhar e reproduzir comportamentos.

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