FAMÍLIA, BASE PARA A VIDA: A PANDEMIA OCULTA
O relacionar-se
apresenta-se com todo os seus prazeres e desafios. É essencial para a sobrevivência da vida humana, equivalente
a alimentar-se para o nosso sistema nervoso e
demais sistemas biológicos. Nascemos com um potencial espiritual,
psíquico e neurobiológico gigantesco, maior do que todo o Universo, isso mesmo, não é apenas
uma “força de expressão” de minha parte,
afinal, possuímos mais sinapses (conexões) neuronais do que estrelas na galáxia e que além de tudo, se modelam e surgem
novas durante toda a vida humana, por meio da
neuroplasticidade cerebral, fatores ambientais e genéticos.
Todavia, acredito
que estejamos em meio a uma pandemia oculta. Não como a última vivenciada, revelada pela contaminação concreta de um agente patológico específico, como um super
vírus ou de uma super bactéria. Estamos sim imersos e boa parte de nós, de modo inconsciente, a outro tipo de
pandemia, uma pandemia oculta
aos olhos; a pandemia do sofrimento
espiritual e mental, devido as relações e aos vínculos
empobrecidos e adoecidos.
Segundo o psicólogo, Professor Renato Dias Martino;
“A saber, o
ambiente emocionalmente saudável é aquele que
mantém um clima carinhoso, amoroso, afetivo, onde a ternura esteja presente. Isso é propiciado a partir da lealdade nos vínculos
que sejam realmente autênticos e espontâneos. Sendo que não podem existir técnicas que tragam a possibilidade de instalação e manutenção desse clima, que
não seja de forma natural, simples,
sincera e verdadeira. Em outras palavras, é fundamental que o acordo
com a realidade seja genuíno.”
Quando se trata de relacionamentos, os dois são parte do problema e também a solução. Não adianta responsabilizar apenas uma das partes. Ambos sempre serão responsáveis pelo que acontece numa relação. E me
refiro aqui a todos os tipos de relações, desde entre parceiros, matrimonial, parental, irmãos, familiares, profissionais e etc.
Ninguém sai
“ileso” de ninguém. Porém, qual o limite? Primeiramente, é importante reconhecermos que não existe satisfação
completa e absoluta em um relacionamento. Este seria
um caminho para uma constante frustração. Afinal, é importante caminhar
em prol de parar de exigir
do outro a satisfação da nossa própria loucura idealizada. Mas então, como nos relacionar insatisfeitos? Partindo da
premissa que todo ser humano tem direito a dignidade em ser, o buscar exercer o
controle sobre as ações e emoções do outro, mesmo que de forma insidiosa
ou velada, é o nome inicial da violência. Exatamente! Até buscar “convencer” o outro de sua própria verdade
pode tornar-se um ato violento.
Existe algo dentro dos relacionamentos adoecidos e ambiente de violência em prol da perda total da
identidade do indivíduo e até a perda da liberdade de expressão espiritual, cognitiva e emocional. Pode iniciar-se de forma sútil
e subjetiva, culminando com alto poder destrutivo
e desumanizador.
Agora, o que
aconteceria em nossos relacionamentos se nos sentíssemos seguros o suficiente para confiar, ou seja, nos submetermos uns aos outros em amor? De onde vem a nossa dificuldade em acolher
o próximo? Somos seres relacionais e o isolamento social pode despertar em nós a mesma
sensação biológica de fome por comida, porque então é algo tão desafiador? Seja com pessoas que conhecemos, familiares ou estranhos, somos chamados para vivenciarmos
e sentirmos relacionamentos, para
cuidarmos uns dos outros, para amarmos uns aos outros. Muitos aprendizados podemos
desenvolver sozinhos, mas no caso do acolhimento e compreensão de nossas emoções e do nosso ser, aprendemos em nossas relações,
inclusive com Deus.
A construção das memórias consolidadas (sinapses que durarão
a vida toda), pelo nosso aprendizado
vivo relacional (redes neurais), associados as emoções, serão referenciais presentes nas nossas respostas
de experiências futuras,
adequação de comportamento, vivência da espiritualidade e ainda, de reações instintivas a fatos novos e resolução
de problemas. Stanislavski chama essas memórias
de sementes, dada à importância no cuidado quando retomadas. Ressalta ainda que não
somente as memórias próprias, diretamente vivenciadas compõem o silo, mas os sentimentos suscitados pela observação empática das emoções
alheias. Por isso, a importância de observação e aproximação emocional
relacional, até o ponto de apropriar-se de seu sentimento e do outro, diferenciando-os conscientemente e enfim, desenvolver relacionamentos dignos, curativos e ambientes nutridores.
“Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos
os mistérios e toda a ciência, ainda
que eu tenha tão grande
fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou.”
I Coríntios 13.22
Isis
T. Gonçalves Lima
Doutoranda em Tecnologia Digital e
Educação, pelo INFORTEC, CEFET-MG. Mestra em Neurociências e Neurobiologia,
pela UFMG, onde atuou como professora concursada de neuroanatomia e
neurofisiologia. Atualmente, responsável pelo Núcleo de Pesquisa e Inovação da
Rede Batista de Educação e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação e
Residência Docente em Educação Integral da RBE. Docente para o programa de
pós-graduação em Neurociências, Neuropsicologia e graduação em Psicologia do
IESLA. Editora-chefe do Periódico Respectus Educacional. Possui ainda,
Licenciatura em Pedagogia, bacharela em fisioterapia e psicanalista pelo Grupo
GEPA.

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